O cacoete da relevância


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Eu não consegui ir ao debate do Estadão e me arrependi disso. Mas vi o post do Edney (bem-vindo, Edney) e estou agora vendo a íntegra aqui.

O debate foi estranho, sobre um assunto estranho e o tema, falacioso. O próprio nome, “Responsabilidade e Conteúdo Digital” já é uma armadilha, porque tenta focar em um ponto que é considerado fraco dos blogs, o de responsabilidade, que apenas um jornal teria. Continuou pela parte da qualidade do leitor, que é uma continuação, parece, de um tema comum no Blogcamp: a formação e qualificação dos leitores.

Permeando boa parte da discussões está uma visão de mundo elitista, na qual se critica de um lado os bloggers por “produzirem muita porcaria” e os leitores por “consumirem muita porcaria” sem que se reconheça qualquer valor nas manifestações públicas individuais. Essa é uma opinião pré-Internet que, na minha opinião, vem de um cacoete desenvolvido em um mundo de escassez no qual os custos são altos e a massificação é uma necessidade econômica, mas que não se aplica mais quando qualquer um pode ser publicado com custos baixos.

Antes da Internet, as palavras precisavam ser escritas em número certo, editadas, formatadas, impressas e distribuídas, e isso é um trabalho difícil, que exige uma operação industrial que não pode ser efetivamente montada por indivíduos. Grande parte do prédio do Estadão da Marginal Tietê é tomado por uma grande área industrial, destinada a imprimir os jornais onde se entra somente com tapa-ouvidos. Ao mesmo tempo, um andar inteiro é dedicado aos jornalistas e outros a vendedores de anúncios, entrega, telecomunicações, sistemas, diagramação, organização, restaurante, recursos humanos e tem ainda todas as filiais em diversas cidades.

Esse trabalho exige uma organização enorme, e quanto maior essa organização, mais fácil é para ela competir contra outras organizações, por motivos econômicos. Essa vantagem levou, com o passar das décadas, à concentração econômica, ao ponto em que há apenas um grande jornal por cidade, com algumas exceções, inclusive de alguns de alcance nacional que conseguiam conviver na mesma cidade (Estadão e Folha, Jornal do Brasil e O Globo). Princípios similares levaram à concentração das revistas, das rádios e das TVs dentro de seus nichos.

De um lado, essa concentração deu a esses meios de comunicação importância em controlar a comunicação, para bem ou para o mal. Por outro lado, deu a eles capacidade econômica para contratar e sustentar equipes grandes e profissionais de alto nível, e garantiu a esses profissionais um público maior de leitores e portanto maior impacto em seus textos, mas como o espaço é limitado, é feita uma escolha e somente se publica o que se considera relevante para uma faixa ampla da população. O lema do New York Times, afinal, é “All the news that is fit to print“.

À medida em que a existência de grandes grupos industriais deixa de ser necessária para uma operação de informação, muitas vozes que estavam caladas por falta de oportunidade – e por não serem consideradas dignas de publicar – começam a poder ser ouvidas. Acontece que quem está esperando manifestações típicas daquele mundo de escassez e grandes jornais vê, por seu prisma, uma catástrofe, com hordas de bárbaros destruindo a civilização. Nesse debate, e em outros, se vêem blogs como se fossem jornais ou como se eles precisassem se adaptar às regras e limitações que surgiram no mundo dos jornais, e isso não é verdade.

Blogs tem custo baixo, pouca ou nenhuma receita e não tem normalmente uma grande operação econômica por trás. São opinião pura. O lema como um todo pode ser “All the news“, porque não é mais necessário se preocupar com se um artigo ou matéria cabe ou não, em todos os sentidos de “caber”. Não é mais necessário publicar somente algo que tenha apelo universal. É possível publicar o que tem apelo local, regional ou tópico, ou mesmo o que não tem apelo nenhum.

Enquanto nos jornais existe uma competição pelo espaço limitado que dá à relevância geral e ao retorno econômico papéis cruciais na decisão sobre o que vai ser apresentado ao leitor, na Internet somente a relevância e a visibilidade para cada leitor contam. Lembrem-se do velho axioma: “toda notícia é local”.

Portanto, no debate, ao mesmo tempo em que se reclamava da irrelevância e baixa qualificação de blogs pessoais, se ignoravam os defeitos do jornalismo diário (que está longe de ser infalível). Além do que, em um meio com tantas vozes quanto a chamada blogosfera, utilizar pequenos blogs pessoais como referência sobre o que é um blog é como utilizar folhetos de anúncios de trabalhos de macumba e amarração para o amor como representativos da mídia impressa: pode ser feito, mas não sem uma boa dose de desonestidade.

5 thoughts on “O cacoete da relevância”

  1. Opa! Eu já estava inconformado que vc não tinha blog! 🙂

    “Whats perfect for you is like a hell for me two perfect worlds, it just cannot possibly be”

    Realmente ficou mal colocada essa questão de dizer que tudo é lixo, e vc fez uma outra abordagem bacana que eu ainda não tinha me ligado, a questão econômica de se publicar esse suposto lixo aumentava a discriminação contra conteúdos menos ortodoxos.

  2. Obrigado, Edney. Eu estava devendo isso faz tempo para mim mesmo.

    É que eu estava me sentindo de fora da conversa. E estava na posição de defender blogs ao mesmo tempo em que se perguntassem teria de admitir que a defesa era em tese, porque blog que é bom eu não tinha nenhum. Agora eu tenho.

    Fico feliz em contribuir com a discussão e com a compreensão desse mundo novo. E para falar a verdade eu ajudei um pouco no primeiro site do Estadão em 1.995, e no da Agência Estado. Conheci muita gente ligada e interessada, e parte das minhas opiniões favoráveis a blogs vêm deles.

    Pena que o discurso da propaganda deles ficou o contrário, um “a alternativa é um lixo tão grande que é melhor você ficar com a gente mesmo” ao invés de um “não importa quão boa seja a concorrência, nós somos melhores”.

    Espero fala mais com você no futuro.

  3. Pois é, agora as pessoas podem criar blogs com temas que se fossem livros não interessariam ao grande público, mas que seriam extremamente interessantes para aqueles que os comprassem. Não é como um jornal.

    Hoje eu posso ler blog sobre um assunto específico, sobre alguém que pesquisa sobre aquilo, ou seja, terei a informação que eu quero por um especialista e não por um repórter que tem dois dias para escrever sobre um assunto que nunca viu na vida. Claro que estou falando de um micro-universo, se comparado com a quantidade de blogs que há por aí, mas é esse universo, entre outros, que faz valer à pena um essa ferramenta chamada blog.

  4. Ainda não li o post. Só os comentários.

    O movimento dos Blogs está para o mercado editorial assim como o movimento de Software Livre está para o mercado de software.

    Blogs, Software Livre, Creative Commons, é tudo conseqüência da mesma Internet.

    Já disse um cientista que não lembro o nome, previsão é algo difícil, ainda mais sobre o futuro. Mas arrisco uma única certeza: há mais mudanças sócio culturais vindo aí.

    BTW, OOXML perdeu hoje na ISO. Hip hip, úrra !

  5. Eu concordo com isso inteiramente. Cada um desses movimentos é um pouco diferente porque as situações são um pouco diferentes, mas cada um deles traz muito desse princípio de criar cultura, compartilhar e com isso permitir que mais cultura.

    É o Homebrew Computer Club de novo.

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