Archive for February, 2008

Uma aventura em bash

Sunday, February 10th, 2008

Em uma lista de discussão da qual eu participo, cujo nome não deve ser mencionado nunca, as pessoas começaram a discutir bobagens feitas em servidores Unix, e eu pude contar uma história que aconteceu comigo em 1998. Se você é um administrador Unix ou, em especial Linux, você provavelmente vai achar interessante. Caso contrário, você vai achar ainda mais chato que os posts habituais.

Eu estava conectado em um servidor Linux remoto, resolvendo um problema grave e urgente nos servidores SMTP de um cliente, um grande grupo editorial e de mídia cujo nome todos conhecem. Isso era resultado de um trabalho de consultoria.

Eu editei um script para mover alguns arquivos de diretório, e esse script moveu o diretório /bin para algum lugar desconhecido.

O que aconteceu foi mais ou menos o seguinte:

# [cria]
# [roda]
... script demora demais
^C
# ls
ls: command not found
# cd /bin
/bin: no such file or directory
# mkdir /bin
mkdir: command not found

… desespero, diversas tentativas de recuperar o diretório /bin, medo, etc…

Daí eu me toquei: eu estou em uma máquina Linux, com exatamente a mesma distribuição e versão. A máquina remota aceita login como root. Tudo que eu preciso fazer é copiar o meu diretório /bin para a máquina remota usando o scp. Então eu tento:

local$ scp -pr /bin root@remote:/bin
Password:
/bin/bash: command not found

Lógico, duh! Então eu fiquei esperto:

# which perl
/usr/bin/perl
# perl -e 'mkdir "/bin"'
#

Isso! Agora eu só precisava novamente do bash, que eu sabia que ainda existia na máquina, porque, afinal de contas, eu estava com uma instância aberta. Então eu fiz o seguinte:

# perl > /bin/cat

while(<>) {
print
}
^D
#!/usr/bin/perl
while(<>) {
print
}
^D
# perl -e 'chmod "/bin/cat", 0777'
# cat /proc/self/exe > /bin/bash
# perl -e 'chmod "/bin/bash", 0777'

E então eu tinha um bash funcionando! Então eu rodei o scp novamente e funcionou direitinho. Claro que cada passo me tomou bastante tempo, porque eu tive de testar cada comando e cada tecla, porque se eu perdesse esse shell, eu não teria nenhuma saída. Eu não falei das outras tentativas, como enviar via ftp, rsync, encontrar o diretório para onde eu tinha movido o /bin, rodar vi, find, etc, etc, etc. No total, devem ter sido uns 30 minutos, ou talvez mais, ou menos, não sei. O tempo estava andando de forma estranha naquela tarde. Nas festas certas é uma história popular. A sensação no final foi esta.

Os plágios e Plágios

Sunday, February 10th, 2008

Malcolm Gladwell

É interessante nas discussões na lista blogosfera o quanto se volta ao assunto plágio. Não tem discussão que não caia nisso, e nenhuma em que não haja uma disputa para ver quem odeia mais os plagiadores. Mas com o medo de parecer mole e assim trair seu colegas, diversas coisas diferentes ficam sendo misturadas, e o risco é que atividades legais e produtivas sejam marginalizadas junto com atividades que são imorais e ilegais.

Boa parte das pessoas desconfia do argumento do Creative Commons de que quem escreve se baseia em um histórico e conhecimento pré-existente, e é muito propício que Jon Udell tenha escrito um artigo falando sobre o assunto, no qual ele procura a origem de uma citação feita em um blog, e descobre que é muito mais fácil encontrar a origem de uma citação hoje em dia. No meio, ele cita um excelente artigo de Malcolm Gladwell (em inglês) sobre a experiência de ter um artigo utilizado em uma peça de sucesso, e como isso o fez alterar a forma de pensar sobre o plágio em si:

Palavras pertencem à pessoa que as escreveu. Há poucas noções éticas mais simples que esta, particularmente enquanto a sociedade dedica mais e mais energia e recursos para a criação de propriedade intelectual. Nos últimos 30 anos, leis de copyright foram reforçadas. Tribunais ficaram mais propensos a conceder proteção a propriedade intelectual. Lutar contra a pirataria virou uma obsessão de Hollywood e da indústria fonográfica, e, nos mundos da academia e editorial, o plágio passou de ser más maneiras literárias para algo mais próximo de um crime.

[...]

Eu tinha trabalhado em “Damaged” ao longo do outono de 1996. Eu visitava Dorothy Lewis em seu escritório no Hospital Bellevue e assistia às fitas de suas entrevistas com assassinos em série.

[...]

Eu enviei um fax a Bryony Lavery:
Eu fico contente em se a fonte de inspiraçnao para outros escritores, e se você tivesse pedido a minha permissão para citar, mesmo liberalmente, a minha peça, eu teria prazer em autorizar. Mas tomar material, sem a minha aprovação, é roubo.

[...]
Então eu consegui uma cópia do roteiro de “Frozen”. Ele tirou o meu fôlego. Eu sei que isso não devia ser uma consideração relevante. Mas era: ao invés de sentir que minhas palavras tinham sido tiradas de mim, eu senti que elas tinha se tornado parte de uma causa maior.

Ele conta, então, diversos casos de plágio e acusação de plágio, em livros, jornais e música, como um em que os Beastie Boys foram acusados de copiar 4 notas sampleadas, pelas quais, aliás, eles tinham pago, ou outro, em que o autor do Fantasma da Ópera, Andrew Lloyd Webber foi acusado de plágio por causa de uma sequência, que ele mesmo já tinha usado em outra composição, anos antes do acusador, ou sobre o caso de Rod Stewart, cuja música “Do Ya Think I’m Sexy” tem um refrão idêntico ao de Taj Mahal do Jorge Benjor, que foi lançado antes.

Claro que também é bom citar um caso contrário, de um brasileiro acusado de plagiar um americano, como o caso que Tinhorão usa como evidência de que a Bossa Nova não tinha nada de original: O Samba de Uma Nota Só, cantado por Sarah Brightman, sob o nome de Mister Monotony e composto por Irving Bell, em 1947, ou uns 10 anos antes de Tom Jobim.

O artigo de Malcolm Gladwell vale a pena ler, no mínimo para permitir uma reflexão sobre o quanto a criatividade exige de uso de conteúdo criado por outros, e finalmente sobre o quanto nós gostaríamos de sacrificar de liberdade criativa para endurecer leis e comportamentos, simplesmente porque estamos todos indignados com os splogs.

Splogs não participam dessa alimentação criativa e é difícil de entender porque alguns acham que adotar normas super restritivas de licenciamento de conteúdo vão conter splogs, que simplesmente não se importam com qual a licença que o autor adotou para o conteúdo. Existem bons argumentos e boas idéias por trás do movimento do Creative Commons, e essas idéias eu gostaria que todos os blogueiros entendessem.