Henrique Schützer Del Nero

Prof. Dr. Henrique Schültzer Del Nero (1959-2008)Faleceu ontem, 9 de maio de 2008, o Prof. Dr. Henrique Shützer Del Nero. Um post sobre isso está no blog do fantástico Kogler. Fiquei sabendo por causa de uma pequena nota no final de um post interessante sobre o infinito do Ricardo Bittencourt.

Henrique Del Nero, entre muitas outras coisas, foi o autor do livro “O Sítio da Mente”. Esse livro, esgotado em papel, mas disponível on-line, é um dos livros mais interessantes que eu já li sobre o cérebro, a mente, a consciência e neurociência. Anos depois eu vim a ler alguns livros do aclamado Oliver Sacks, como o famoso “O Homem que Confundiu Sua Mulher com o Chapéu”, e Tempo de Despertar e acabei decepcionado, graças à memória do impacto que “O Sítio da Mente” causou em mim quando li.

Parte das idéias são as mesmas, mas eu já tinha sido convertido. Eu já entendia um pouco sobre o quanto nós temos uma idéia completamente errada do nosso próprio cérebro, vendo de dentro, e o quão importantes e ao mesmo tempo quão triviais são tratamentos para pequenas disfunções. Isso despertou o meu interesse no assunto, que pode ser visto por exemplo neste post sobre Jill Bolte Taylor e seu derrame e neste sobre Sherwin Nuland e a terapia de eletro-choque.  Isso me ensinou a não ter medo de psiquiatras e a não ter preconceito com depressão e especialmente com pessoas passando por fases de depressão. Além disso, esse livro também me ensinou a prestar atenção nas pessoas, e me poupou de um bocado de problemas ao me permitir identificar alguns sociopatas.

Eu sempre tive a idéia de um dia asssistir a algumas das aulas que ele dava no LSI. Agora eu não vou mais ter essa chance.

Uma grande perda, sem dúvida.

O livro Microcosm

Capa do livro MicrocosmCarl Zimmer é talvez o meu blogueiro/escritor sobre ciência favorito hoje em dia. Eu já citei o blog dele em um post anterior sobre evolução biológica e lingüística. Ele acaba de lançar seu mais novo livro: Microcosm. Eu ainda não li, mas mal posso esperar. Um livro inteiro dedicado à bacteria que deu origem à palavra “coliforme“.

Em parte para promover o livro, Zimmer recebeu perguntas sobre a bactéria e escolheu 5 para responder em posts individuais. As perguntas, resumidamente foram:

Por que E. Coli é o organismo central, o mais estudado da microbiologia?

Porque se desenvolve rápido, é segura, suporta oxigênio, transfere DNA de forma sexuada (o que torna fácil extrair esse DNA para estudo), e porque é o organismo mais estudado da microbiologia, ou seja, efeitos de rede.

Porque algumas E. Coli são boas e outras são ruins?

Todos nos carregamos E. Coli nos intestinos, desde quando somos bebês. Algumas são perigosas, como a linhagem E. coli O157:H7, que causou diversas mortes nos EUA recentemente ou a Shigella, que é na verdade um tipo de E. Coli. Mas outras até mesmo protegem nosso organismo contra infecções.

Desde quando as E. Coli são sexy?

E. Coli trocam material genético através de diversas formas (uma delas é o uso dos chamados pilli F, onde “F” viria do inglês “Fertility”). Essa troca de material genético é estudada porque ela dá indicações sobre a resposta à pergunta: porque existe o sexo.

O que E. Coli pode dizer sobre Criacionismo?

E. Coli é uma bactéria favorita de criacionistas (junto com a segunda lei da termodinâmica), porque seria evidência da impossibilidade da evolução já que o flagelo é tão complexo que só pode ter sido projetado e não poderia ter evoluído uma vez que a evolução exige a existência de passos anteriores em que determinada estrutura não está completa e mesmo assim é útil. Acontece que existem estudos exatamente sobre como essa evolução poderia ter acontecido, e evidências de que existem sim organismos com partes de flagelos que ainda assim tem função como é o caso da bactéria Buchnera, o que desmonta o argumento de que somente um projeto pronto poderia levar a flagelos. Veja um post sobre a discussão e aqui, um argumento (falacioso) em favor da chamada complexidade irredutível.

Qual o seu truque favorito com E. Coli?

Como o microorganismo mais hackeado da biologia, existe muito que foi feito com as E. Coli: produção de insulina, produção de combustível para jatos, e muito mais. Mas Carl Zimmer escolheu como hack favorito: a camera E. coli. Um método para gravar imagens através do uso do metabolismo de bactérias modificadas para ter sensibilidade à luz. A imagem abaixo mostra um auto-retrato, imagem ampliada de E. Coli feito com uma lâmina de E. Coli.

Auto-retrato: Estudante de biologia Jeff Tabor segurando uma lâmina com uma foto de uma E. Colli ampliada, feita com E. Colli.