A discussão sobre DRM é reprise

Jack Valenti

Nos anos 70, diversos produtos foram lançados para permitir a gravação de video. O que teve mais sucesso inicialmente foi o Betamax da Sony. Os grandes estúdios ficaram preocupados e iniciaram uma campanha junto a legisladores e um processo, Universal City Studios vs Sony Corporation, com o objetivo de impedir a nova tecnologia e de punir a Sony e os telespectadores.

A Sony ganhou na primeira instância, com os videocassetes considerados legítimos, e sendo reafirmado que as pessoas possuíam o direito de copiar filmes para uso pessoal pela lei americana. O estúdio ganhou parcialmente na apelação, pedindo que a Sony fosse condenada por favorecer a violação dos direitos autorais e que os estúdios deviam ser remunerados. Finalmente, em uma decisão histórica, a Suprema Corte dos EUA deu ganho de causa à Sony, decidindo que quem produz uma tecnologia não tem responsabilidade por seu eventual uso ilegal, contanto que esta tenha usos legítimos substanciais.

Esse é um dos grandes casos da história da propriedade intelectual, porque deu segurança jurídica para empreendedores nos EUA desenvolverem toda uma família de equipamentos que não existiam anteriormente, e para o crescimento de todo o mercado de home video, gerando grandes lucros para os estúdios, os mesmos que tinham tentado impedir esse desenvolvimento. Também foi o que deu segurança para grandes investimentos que permitiram o crscimento da Internet 10 anos depois.

Esse é apenas um dos casos no qual os grandes detentores de poder econômico tentaram evitar que surgisse algo, uma nova tecnologia ou uma nova estrutura econômica, que ameaçava a forma pela qual eles ganhavam dinheiro.

Jack Valenti

Como isso está acontecendo novamente com o DRM, é necessário relembrar as discussões anteriores, porque os argumentos utilizados continuam os mesmos. Não há portanto ocasião melhor que agora para ler a transcrição do depoimento de Jack Valenti, falecido este ano, então presidente da MPAA (Motion Pictures Association of America) para o Congresso Americano em 1984. O depoimento foi publicado pelo site cryptome.org no endereço http://cryptome.org/hrcw-hear.htm.

Na época, Valenti tentou usar muito do medo americano contra o sucesso econômico do Japão em seus argumentos contra a Sony, além do medo de ruína financeira, miséria e fome para os milhares de trabalhadores da indústria do cinema, e a frase mais famosa desse depoimento é a seguinte:

Eu digo a vocês que o videocassete é para o produtor de filmes e o público americano o mesmo que o estrangulador de Boston é para a mulher sozinha em casa.

Uma frase tão eloquente na justaposição de imagens emocionais e tão transparentemente manipulativa, que traz até lágrimas aos olhos.

Mas as partes em que ele mais me chama a atenção nesse depoimento são aquelas nas quais ele tenta demonstrar o prejuízo que o videocassete causa:

Agora veja aqui a próxima [estatística]: 87 por cento, 86,8 por cento de todos esses donos [de aparelhos de videocassete] apagam ou pulam comerciais. Eu tenho aqui, Sr. Presidente, se você não está a par de como isso funciona — este é o Panasonic. Este é o pequeno controle remoto que você usa nas máquinas. Ele tem aqui: canal, voltar, parar, avançar, pausa, avanço rápido, lento, para cima, para baixo, busca visual para a esquerda ou direita.

Agora, deixe-me dier o que a Sony fala sobre esta coisa. Estas não são minhas palavras. Elas vêm direto da McCann Erickson […]. Eles anunciam um recurso de busca variável que deixa você ajustar a velocidade com a qual você quer ver a fita de 5 vezes para até 20 vezes da velocidade normal.

Agora, o que isso significa, Sr. Presidente? Significa que quando você exibe uma gravação, que você fez […]. Você está sentado em sua casa, em sua cadeira confortável e chega o comercial e está bem no meio de um filme do Clint Eastwood e você não quer ser interrompido. Então, o que você faz? Você usa essa busca e um comercial de 1 minuto desaparece em 2 segundos.

Pausa para o banheiro

Muito interessante, e ganha sentido se for juntado com uma entrevista feita em 2002 por Jamie Kellner, presidente da Turner Broadcasting System, para a revista Cableworld:

JK: Por causa do pulo dos comerciais… É furto. Seu contrato com a rede quando você recebe o programa é que você vai assistir aos comerciais. Senão você não poderia receber o programa em uma base sustentada por anúncios. Sempre que você pula um comercial […] você está na verdade furtando a programação…

CW: E se você tiver que ir ao banheiro ou levantar para pegar uma Coca-cola?

JK: Eu acho que existe uma certa tolerância para ir ao banheiro. Mas se você formaliza isso e cria um aparelho que pula certos intervalos específicos, você tem isso por um único motivo, a não ser que você vá para o banheiro por 30 segundos. Eles fizeram isso só para que fosse fácil para alguém pular um comercial.

Portanto, ir ao banheiro durante o intervalo é uma concessão, mas eles deixam você fazer isso porque eles são tão legais. Em outras palavras, uma vez que eles transmitem um conteúdo, eles tem controle sobre tudo que existe, incluindo sobre você.

Valenti também utilizou a matemática comum que só se aplica para o cálculo das supostas perdas para os grandes estúdios e gravadoras:

Se 56 das 93 gravações feitas pelos 250 lares durante os primeiros 3 dias de uma semana, apenas 56 desses filmes são guardados na prateleira e para exibição adicional — então o número de filmes colecionados em um ano pelos 2,4 milhões de lares com videocassete […] seria 6.537.216. A um preço de 50 dólares, isso teria valor de venda de 3,2 bilhões de dólares.

Sr. Presidente, coisas como essa podiam fazer um homem crescido chorar.

De fato, poderiam fazer um homem crescido chorar, mas por outros motivos. Desde quando toda e qualquer gravação feita é uma venda perdida, especialmente a 50 dólares? Desde quando toda a produção da televisão é vendida em fitas? Se sim, onde está a coleção com os outros episódios da Armação Ilimitada?

O que esses três trechos demonstram é uma forma de pensar que não muda. Essa forma pode ser resumida na afirmação de que toda oportunidade de ganhar dinheiro que os estúdios e gravadoras conseguem imaginar são direitos adquiridos e nenhum outro direito de nenhuma outra pessoa é tão importante, porque elas são donas de tudo. Donas de você, da sua coleção de fitas, da nossa cultura, do que eles produzem e do que você produz, e se alguma limitação técnica feita para proteger os interesses deles vai criar barreiras para o conteúdo que eu, você ou um produtor independente gerou, tanto melhor, porque não concorre e, afinal, eles são donos do seu equipamento. Você pode usar esse equipamento apenas porque eles autorizaram e da forma que eles autorizaram.

Como o seu direito de ir ao banheiro.

Posts relacionados:

Isso sim é blog de nicho

No dodos

A Bibi tem vários blogs. Além do Bibi’s Box, ela tem também o Cinematógrafo, em Português sobre cinema, o Videos with Bibi, com filmes em domínio público e finalmente o blog de nicho ecológico Dodo Blog.

O que dizer de um blog que fala apenas de Dodos, pássaros parentes dos pombos mundialmente famosos por sua mansidão, doçura, seu tamanho e por sua extinção nas mãos de navegadores holandeses, mas em compensação fala de tudo sobre eles. Tem desde artigos científicos, ilustrações, e até um artigo especial para o Talk like a pirate day.

Sobre ciência, tem essa informação importante e óbvia:

Little known to science, the Loch Ness Monster is not, in fact, a plesiosaur or a brontosaurus or any other saurian silliness. That would be ridiculous. Dinosaurs are extinct.

Obviously it’s a dodo.
Loch Ness Dodo

Artigo da Caros Amigos sobre DRM na TV Digital

Logotipo Revista Caros AmigosA revista Caros Amigos publica excelente artigo escrito por Diogo Moyses e Oona Castro sobre o DRM na TV Digital, que toca nos principais pontos pelos quais ele é uma péssima idéia:

Sobre os usos justos do conteúdo:

Caso venha a fazer parte das normas técnicas do SBTVD, o DRM impedirá o espectador de gravar qualquer programa televisivo. Os conteúdos somente poderão ser armazenados no set top box, aparelho conversor pelo qual vai passar o sinal digital para que usuário possa assisti-lo em sua atual televisão. O professor que deseja gravar programas de TV para posterior exibição em sala de aula (para ilustrar algum conteúdo disciplinar, por exemplo) ou mesmo o telespectador que habitualmente grava conteúdos ficcionais (novelas, por exemplo) ou jornalísticos (como uma entrevista importante) para depois assisti-los em qualquer outro lugar, não poderá mais fazê-lo, já que a armazenagem no set top box não permite que o conteúdo seja transmitido a outra mídia e, portanto, assistido em qualquer outro lugar – nem na casa dos amigos, nem na escola, nem no trabalho.

Sobre obras de domínio público ou com licenças permissivas:

Filmes como “O Garoto”, de Charles Chaplin ou “O Gabinete do Dr. Caligari”, de Robert Wiene ou por exemplo, de notória relevância, são de domínio público. Qualquer cidadão tem o direito de copiar, utilizar e distribuir tais obras. Com o DRM, tal direito será tolhido. Da mesma forma, filmes como “Cafuné”, licenciado em Creative Commons, cuja distribuição sem fins comerciais está autorizada pelo autor, não poderá ser copiado.

Sobre o desequilíbrio entre os direitos dos diversos agentes:

Em resumo, caso adote o DRM, o Estado brasileiro vai retirar do cidadão o que lhe é de direito, fazendo com que um dispositivo técnico se sobreponha à lei. Em nome de um direito (o autoral), violar-se-à outro igualmente importante (o de acesso às obras). Para que o leitor não seja enganado por afirmações sem fundamento, é preciso lembrar que a TV por assinatura já possui sinal digital e a comercialização de DVDs ilegais não se deve à gravação da programação exibida por cabo ou satélite. Não se vendem DVDs – copiados de forma caseira – da Fox, Telecine e outras, até porque os filmes são exibidos muito antes nas salas de cinema.

Sobre o custo e a perda de independência:

O sistema anticópia defendido para o SBTVD, o High-bandwith Digital Copy Protection (HDCP), é proprietário, ou seja, uma empresa privada detém os direitos sobre a tecnologia. Sua inclusão na fabricação dos conversores da TV digital, se imposta à indústria pelo Executivo, implicará em pagamento de royalties, encarecendo ainda mais um produto que, indicam os fabricantes, já não será acessível ao conjunto da população.

Entretanto, há quem esteja disposto a cobrir esse custo. Recentemente, a MPAA (Motion Picture Association of America), representante dos estúdios de Hollywood, esteve em Brasília, acompanhada de representantes das emissoras nacionais, para oferecer ao governo brasileiro subsídios para a inclusão do DRM nos conversores. Curiosamente, foi após essa reunião que o ministro das Comunicações declarou que, ao contrário do que havia anunciado anteriormente, o SBTVD adotaria sim o uso de sistema anticópia.

Com isso, além da evasão de capital nacional para o exterior e o encarecimento do set top box, compromete-se a livre concorrência, na medida em que a empresa detentora da tecnologia monopolizará sua produção, impedindo a inovação e a fabricação de dispositivos compatíveis com o SBTVD.

O uso da “pirataria” como desculpa e sua ineficiência:

A campanha contra a pirataria, uma vez mais, é a fachada para defender a inclusão do dispositivo na TV digital. Mas vale a pergunta: quando um CD da Marisa Monte, lançado com DRM, apareceu nas barracas de camelô, quem foi o responsável pela quebra do sistema? Um usuário médio, padrão, fã da cantora? Ou um especialista capaz de quebrar tantos outros sistemas anticópia? E quem será o responsável pela distribuição ilegal? O mesmo usuário padrão e seu fã? Ou seja, o DRM é, inclusive, ineficiente, facilmente violável por especialistas. Prejudicará somente o telespectador, não trazendo benefícios nem à grande indústria que tanto o defende.

Sobre TV Digital neste blog:

Leia o artigo da Caros Amigos aqui.

via A2K

Acampamento EFF para sites Web 2.0

EFF - Bootcamp

A EFF está promovendo um evento para passar para os novos desenvolvedores de sites com conteúdo gerado pelos usuários saberem como lidar com a lei, com a polícia, com reclamações, direitos autorais, patentes, e muito mais. Pena que é na Califórnia, e não no Brasil.

É um mundo complicado, com muitas leis e muitos interesses conflitantes, e mudando muito rápido. Nós precisamos muito de algo assim por aqui. Ainda chegamos lá.

via Oblomovka

Google acabou com sites por assinatura?

NYT Logo

No Blog de Finanças da revista Portfolio, Felix Salmon afirma que foi o Google que acabou com o Times Select. De certa forma, ele está certo, ou talvez seja melhor dizer que foi um fim esperado com a Internet como funciona hoje em dia.
O Times Select foi o produto criado pelo New York Times para rentabilizar seu site há dois anos. O acesso era liberado durante um período de, creio, 1 semana e após esse período, somente pagando pela assinatura. Além disso, algumas matérias especiais, editoriais, op-eds e textos de colunistas eram exclusivos de assinantes.

A empresa conseguiu um faturamento de cerca de 10 milhões de reais por ano, mas mesmo assim resolveu, esta semana, abrir o acesso novamente. O motivo: o tráfego vinha principalmente de mecanismos de busca, e não diretamente. Esse tráfego, do qual o jornal abria mão por deixar o conteúdo atrás de um muro, era perdido. Com o crescimento da Internet, torna-se possível ganhar mais dinheiro fornecendo conteúdo de graça do que cobrando por ele, paradoxalmente.

Acontece que para ganhar tráfego, você precisa de reputação virtual, i.e., links de outros sites. Quando o NYT fechou o acesso, as matérias do NYT deixaram de ser repassadas e de receber links em blogs e artigos. Ou seja, perderam “relevância” na área na qual as discussões mais crescem, e que ocupa fatia cada vez maior do tempo das pessoas.

Brad DeLong também completa que as próprias instituições perdem importância, e que as pessoas que escrevem ganham cada vez mais valor, graças a essa reputação surgida da facilidade dos mecanismos de busca.

Agora, falta o mais importante site pago do mundo, Wall Street Journal fazer o mesmo, o que bem pode acontecer já que seu novo e infame dono, também é dono do Myspace.

via Brad DeLong.

Patente de software e patente de música no Brasil

Balança da justiça Eu falei em um post anterior que no Brasil não há patente de software, e acho que seria bom esclarecer isso.

Na lei brasileira não só não há previsão desse tipo de patente, como ainda há proibições específicas, pois na lei 9279 de 14/5/1996 está escrito o seguinte:

Art. 10. Não se considera invenção nem modelo de utilidade:

I – descobertas, teorias científicas e métodos matemáticos; (…)

V – programas de computador em si;

Na lei americana não havia previsão de patentes sobre software, já que patentes foram feitas para proteger invenções específicas, não idéias, e software é completamente formado por idéias. Porém, ao longo do tempo, diversas decisões judiciais foram ampliando o escopo do que uma patente podia proteger até o momento em que se chegou à situação atual na qual praticamente tudo pode ser registrado, mesmo software, descobertas e métodos de fazer negócio.

Felizmente, a lei brasileira limita exatamente as patentes mais perigosas, porque inteferem excessivamente no jogo econômico, como as de métodos de negócios e de software.

Esses dois tipos de patente tem o problema de limitar a competição entre empresas de forma desproporcional, e ao invés de aumentar a inovação acabam reduzindo porque causam uma insegurança jurídica muito grande.

Claro que alguém vai perguntar, mas e músicas, são patenteáveis? Não, não existe patente de música, existe copyright de música, já que músicas não são invenções. Da mesma forma, não há patente sobre marcas. Há registro de marcas. São 3 tipos de proteções diferentes, com prazos e regras bem diferentes.

Mas sempre é bom lembrar que eu não sou um advogado e que, se você depende disso, você deve consultar um antes de fazer qualquer coisa ou você pode se arrepender. Eu tento acompanhar o andamento dessas leis, exatamente para eu não me arrepender de algo que outros fizeram.

Holofonia

HeadphoneNo Bagulhos, um post sobre audio 3D. Utilizando os dois ouvidos é possível ter a sensação de profundidade e os sons parecem vir de locais específicos. Nos meus velhos tempos no LSI, eu lembro de ter visto um aplicativo para máquina Silicon Graphics, desenvolvido pelo MIT, que alterava sons para dar essa sensação de direção.

Muito pouco áudio é feito para dar esse feito, mesmo porque ele se perde facilmente se você não está com um fone de ouvido.

No post, diversos arquivos. Eu coloquei para tocar o “Virtual Barbershop” e mudei de tab rapidamente. Fiquei surpreso quando ouvi um barulho que eu achei que viesse da parede vizinha, e não do fone de ouvido. Vale a pena ouvir.

Blog em pesquisa científica?

Wikimedia commons - cruzamento de dadosNo Blog da Edelman a Thiane pergunta: blogs podem embasar teorias científicas? A resposta, como sempre, é “isso depende”.

Existem diversos tipos de ciência, diversos tipos de teoria e diversos tipos de pesquisa, e para algumas faz sentido e para outras, não.

Para pesquisas estatísticas, de estudo de populações, a resposta é não para análises quantitativas, a não ser que você consiga uma amostra não viciada ou tenha informações adicionais suficientes para separar o joio do trigo. Para análises qualitativas a resposta é sim, se você fizer com cuidado, porque embora uma entrevista ou um relato pela pessoal possa ser tão mentiroso quanto uma entrevista ou relato pela Internet, se você faz pessoalmente existem outras indicações pessoais que podem ajudar a filtrar pessoas que não existem, por exemplo, ou que estão tentando enganar você. Se o pesquisador tomar os cuidados devidos, entrevistas via MSN podem ser tão boas quanto entrevistas pelo telefone, e listagem de número de amigos em uma ferramenta de rede social pode ser tão útil quanto a pesquisa de número de amigos em uma rede social real.

Isso, claro, se você considera ciências sociais como ciências de verdade e muitas pessoas simplesmente não aceitam isso como verdade, porque para uma área do conhecimento ser conhecida como ciência, existem algumas regras que precisam ser seguidas.

De qualquer forma, mesmo que você possa utilizar, não significa que se possa colocar uma enquete em um site e esperar que o número reflita “a opinião do internauta”. Em toda pesquisa você precisa fazer muito trabalho e nenhum tipo de pesquisa recebe um passe livre que evite fazer análises estatísticas sofisticadas. Para serem aceitas, precisam ser publicadas em uma revista de renome, tendo sido submetida a uma revisão feita por pares. Muito cuidado com qualquer pesquisa científica que não tenha passado por uma revisão dessas, porque ela pode não ser científica de qualquer forma.

Ainda bem que não temos patentes de software no Brasil

Patent Busting project

Premier vs Deus e o Mundo. Na lista de loucuras do sistema de patentes americano, um novo caso: a empresa chamada Premier International Associates obteve patente sobre playlists, ou seja, aquela lista de músicas ou vídeos que você pode editar e que permite para um programa escolher qual a próxima música para tocar, e processou, só para começar: Microsoft, Verizon, AT&T, Sprint, Dell, Lenovo, Toshiba, Viacom, Real, Napster, Samsung, LG, Motorola, Nokia, e Sandisk.

Na maior parte dos casos, as empresas foram acusadas de fazer software que toca músicas. Já Dell, Lenovo, Toshiba, HP, Acer, and Gateway foram acusadas de fazer hardware capaz de rodar Windows XP e Vista que pode rodar o Windows Media Player.

O fato de que playlists são óbvias demais não ajuda tanto quanto deveria, embora uma decisão recente da Suprema Corte americana tenha facilitado o trabalho de invalidar patentes óbvias. Antes dessa decisão, era praticamente impossível, e as penalidades mortais para ume empresa. Existe a possibilidade de que pelo menos algumas das empresas resolva pagar para a Premier para não precisar discutir e correr o risco de ser impedida de operar, sem falar que, como são empresas grandes, ter acesso a essa e outras patentes frívolas ajuda a brigar com empresas pequenas, que não tem como pagar.

NTP vs RIM. E em uma história relacionada, a NTP, que ganhou 600 milhões de dólares da Blackberry por uma patente de push e-mail agora quer tirar dinheiro das operadoras AT&T, Sprint Nextel, T-Mobile, and Verizon Wireless. Mas pode não conseguir, uma vez que a idéia de que o sistema de patentes americano está quebrado já está se disseminando.

Diversas propostas já foram feitas, e uma reforma está tramitando no Congresso americano. Um dos argumentos contra essa lei é que uma lei de patentes menos rigorosa atrapalharia os esforços de empresas americanas de extorquir dinheiro de outros países.

Eolas vs Microsoft. E no final do mês passado, a Microsoft fechou um acordo com a Eolas sobre a patente que a Microsoft teoricamente violou quando fez com que o IE identificasse o tipo de componentes pelo código na página e o executasse imediatamente.

EFF vs Ideaflood. Outra: A EFF está tentando invalidar uma patente sobre domínios virtuais que foi solicitada depois que o apache já tinha suporte e já se discutia nas listas de discussão como fazer.

Clearchannel vs Bom-senso. Uma patente que foi invalidada da Clearchannel dava a ela direito exclusivo sobre a “invenção” de vender CDs de shows ao vivo logo depois do show.

Notem que nas discussões sobre a ALCA com os EUA, uma das coisas que os EUA pedia eram alterações na lei de patentes brasileiras para fazer com que ela ficasse mais parecida com a dos EUA.

Outros casos, no site Patent Busting da EFF

Update:
Veja também:

SCO pede concordata

Logo SCO

Demorou, mas a SCO finalmente pediu concordata. Isso já era esperado há um tempo, desde que a tentativa estúpida de estorquir dinheiro de usuários do linux começou a falhar. Como a SCO perdeu para a Novell na maior parte, e o resultado desse julgamento é decisivo na disputa com a IBM, a SCO vai acabar devendo muito dinheiro de qualquer forma, mas talvez fazer isso agora evite que essas empresas recebam dinheiro.

Há uns anos a SCO ameaçava e alguns até acreditaram que o Linux estava com os dias contados, já que se descobriu que tudo tinha sido copiado. Os dois julgamentos mostraram justamente o contrário, que bastava entrar na briga que o Linux ia provar que ele é legal e que é seguro utilizá-lo em negócios. Mesmo a afirmação recente do Steve Ballmer de que usuários do Linux deveriam dinheiro à Microsoft por causa de violações de propriedade intelectual é considerada apenas piada e FUD. A Microsoft, por mais que fale, não teria coragem de colocar isso à prova e perder. É mais seguro utilizar essa ameaça, mas nunca cumprir.

Veja mais no Groklaw.

O nome do papagaio é Alex

llustrations by Andrew Kuo, Photograph by John Woo

De volta ao assunto do post sobre o nome do papagaio levantado no debate do Estadão do qual participaram alguns jornalistas e blogueiros, como o Edney, informo com pesar que o papagaio Alex morreu precocemente aos 31 anos e foi homenageado pela revista de divulgação científica Seed com a republicação on-line da matéria (em inglês) que falava sobre suas habilidades cognitivas e a discussão sobre sua inteligência (ou falta dela).

Update: Matéria da AP sobre o falecimento.

Classificação de Personalidade

Carl Jung por Psych Art.Eu estava falando com um amigo esses dias e a conversa em algum momento passou para personalidade, e eu acabei lembrando da classificação de Myers-Briggs que eu tinha feito on-line uma vez e me impressionou. Eu resolvi dar uma nova olhada.

A classificação é uma entre várias que seguem trabalhos de Carl Jung e é baseada em quatro critérios com duas opções cada para a forma como a pessoa costuma pensar sobre as coisas e sobre o mundo: Introvertido(I)/Extrovertido(E), Intuitivo(N)/Sensitivo(S), Pensamento(T)/Sentimento(S), Percepção(P)/Julgamento(J). A idéia é que as pessoas tem uma tendência a pensar e reagir de certa forma e que essa forma é mais ou menos constante. Não significa que elas não possam pensar de forma diferente, então cuidado para não utilizar isso para estigmatizar pessoas.

Eu fiz o teste on-line várias vezes com diferença de alguns anos e o resultado foi, na maior parte das vezes INTP, ou seja, Introvertido(I) – Intuitivo(N) – Pensamento(T) – Percepção(P). Da última vez, tive um resultado ENTP, mas no limite para INTP.

Minha diversão começou de verdade quando eu vi quais são as características do meu suposto tipo de personalidade, que era a parte que tinha me impressionado.

Eles deram algumas características que parecem ser simples de encontrar, derivadas do próprio questionário. Algumas francamente parecem comuns a todo mundo. Outras são previsões corretas de características que não parecem muito importantes (o fato de não gostar de músicas para animar, ou de dar explicações aparentemente complicadas para problemas simples, por exemplo). Outras foram francamente perturbadoras, porque descreviam a minha forma de pensar durante discussões, ou a forma de pensar em problemas, sobre a vida e sobre relacionamentos que eu achava que era uma particularidade minha. Parece mágica, macumba braba. Os erros foram poucos: gosto pela música, que eu não tenho, por exemplo.

Eu consigo imagino usos negativos para esses testes, como uma desculpa para discriminar pessoas e evitar lidar com a complexidade de cada um, mas deixando isso de lado (e pode ser bom, se for o caso, você treinar suas respostas para os questionários que podem surgir em entrevistas de emprego, por exemplo), é divertido ver as descrições e previsões, mais ou menos como alguns usam um horóscopo, mas com a vantagem de que não é aleatório. E também pode ajudar uma pessoa a conhecer melhor a si mesma (assustadoramente, um dos sites prevê que eu gostaria desse sistema).

Eu perguntei para várias amigos e aqueles que fizeram o teste, segundo o teste, têm personalidades de tipo de INTP, ENTP, INTJ, ENTJ e ESTJ. São grupos aparentemente incomuns, o que me leva a concluir que pessoas que gostam do nosso tipo de trabalho têm tipos de personalidades próximas, ou então que o teste está quebrado.

Será que funciona bem para os outros? Ou será que eu sou a aberração que bate exatamente com um tipo específico? Qual o seu tipo de personalidade? Ele descreve bem você? E seu Orixá, qual é? Só não pergunto o signo, porque signo só serve, na verdade, para cantadas.

Referências para os tipos de personalidade, seguindo Keisey e outros:

Referências:

Atualização: Adicionados mais links, com descrições em Português.

Atualização (2008-02-12): Alterado links do inspiira de wiki.inspiira.org para www.inspiira.org a pedido.

Theo Jansen faz vida artificial com pistões pneumáticos


Theo Jensen Strandbeests

Em 2005 a Bibi postou sobre sobre Theo Jansen e suas Bestas de Areia, em parte baseado em um artigo da Wired.

No post havia imagens, mas não havia videos, mas agora ela achou o video da apresentação dada pelo holandês no último TED: Theo Jansen: The art of creating creatures.

No video, Theo Jansen demonstra seus animais construídos com pistões pneumáticos e movidos a energia eólica, mostrando o “cérebro”, a forma de caminhar, o detector de água, a força e a proteção contra as tempestades. Ao longo dos anos, ele tem tentando fazer a evolução de seus animais. Ele quer um dia ter manadas desses animais na praia, capazes de sobreviver sozinhos.

Veja abaixo e não deixem de ver os bichos caminhando:

Os que “Subtraem e se apropriam arbitrariamente dos direitos”

Balança da justiçaSegundo o advogado Sydney Sanches, não existe motivo para tanta celeuma e os que defendem que não seja incluída a especificação de DRM no Sistema Brasileiro de TV digital estão a favor dos que “subtraem e se apropriam arbitrariamente dos direitos intelectuais“.

Em matéria publicada em O Globo e reproduzida no A2K, o advogado, presidente da Comissão de Direito Autoral, Direitos Imateriais e Entretenimento da OAB/RJ, cita a revolução francesa para justificar que o governo deve obrigar todas as fabricantes de equipamentos que quiserem captar sinais a pagar dinheiro para licenciar tecnologia com o objetivo de dar às emissoras controle completo sobre tudo que transmitem sobre o espectro público pelo qual não pagaram.

Além disso, o DRM daria “a garantia de que não haveria violação aos direitos dos autores, intérpretes, atores, diretores, roteiristas, cenógrafos etc.”, o que na minha opinião seria maravilhoso, já que, hoje em dia eles normalmente trabalham sob contrato e não possuem direitos.

Segundo ele, devemos também tomar cuidado, pois “O fácil discurso de defesa ao consumidor ou de garantia da liberdade não podem servir para descartar o direito dos criadores e de toda a indústria criativa, sob pena de aniquilarmos com toda a capacidade criativa nacional.”. Consequência óbvia, pois aparentemente toda a capacidade criativa nacional é a que está na TV. Nada fora dela é realmente criativo, e, pelo visto, somente dando a emissoras de TV o controle sobre o conteúdo de outros, esses que se submetem vão poder produzir alguma coisa.

Segundo ele, não existiria problema também porque serão permitidas cópias ilimitadas em qualidade de DVD, mas não em qualidade digital. Vou então tentar explicar direitinho, porque parece que ele não entendeu a crítica.

Existem diversos problemas com DRM na TV digital, mas ele não é pago para entender esses problemas. Um dos pontos é que as pessoas deveriam poder guardar cópias pessoais para ver diversas vezes e até fazer uma biblioteca pessoal. As pessoas também deviam poder extrair pedaços e utilizar em produções próprias, sem a necessidade de pedir autorização ou pagar para alguém. As pessoas não deviam de forma alguma ser impedidas de gravar conteúdo que está em domínio público, porque isso é direito do público sendo apropriado pela emissora. Além disso, equipamentos baseados em software livre deveriam poder ter acesso a esses sinais, a certificação de equipamentos não devia ser necessária, e sendo necessária, não devia ficar na mão de uma empresa ou grupo econômico sem levar em conta o interesse do público e dos pequenos produtores. Lembrem-se: o espectro é público, não é das emissoras. Nós é que temos que definir as condições e não nos defender das regras impostas por elas.
Podemos começar a conversar sobre a possibilidade de DRM quando se começar a falar sobre as pesadas multas e a responsabilidade civil das emissoras por “proteger” conteúdo sobre o qual não tem direito, ou pelas emissoras tomarem a cultura como refém eternamente. Sobre punições, multas e responsabilização civil para o consórcio de DRM por qualquer bloqueio a competição e ao software livre, e quando as emissoras pararem de me tratar como se eu fosse um delinquente ao invés de um cliente.

Não são os que querem a cultura livre que estão querendo mudanças nas regras. São grandes grupos de comunicação que resolveram tomar nossos direitos e nossa liberdade de expressão. Nós é que estamos resistindo aos Rent Seekers

Relacionado:

Faça sua parte: discuta com seus amigos, escreva sobre isso!

via A2K.

E Riverbend virou refugiada


Mapa do Iraque

Riverbend é uma blogueira iraquiana, que tem postado desde antes da invasão e ocupação. Junto com Salam Pax, ela foi minha fonte de informação sobre o que era a Guerra do Iraque de verdade, a expectativa da invasão, os bombardeios, a invasão em si e depois a ocupação.

Ambos escrevem bem em inglês e foram capazes de descrever a angústia, medo e expectativa de antes da invasão, o terror dos bombardeios, e a deterioração da vida deles que se seguiu à queda de Saddam. Riverbend frequentava a universidade, saía, visitava amigos e passava a maior parte do tempo de cabeça descoberta. Com o tempo parou de fazer cada uma dessas coisas. Os posts ficaram cada vez mais raros com a falta de energia elétrica e com a depressão de ver o próprio país ir pelo ralo, e a expectativa de uma vida normal sumir. O segundo blog, sobre culinária, foi abandonado.

Salam tinha deixado de escrever, talvez por dois motivos, primeiro, ele assumiu publicamente a homossexualidade em seu blog, segundo, porque ao publicar um livro e começar alguns trabalhos com redes de televisão estrangeiras, ele deixou de ser anônimo e, com isso, passou a ser um alvo.

E agora, finalmente,
Riverbend deixou Bagdá e o Iraque
com sua família mais próxima, deixando para trás toda uma vida. Depois de alguns meses de planejamento e uma curta viagem de carro, na qual passaram por duas barreiras, eles chegaram à Síria, que é o único país que aceita refugiados iraquianos. Realmente, missão cumprida:Bush - Mission Accomplished