Lula vai decidir sobre DRM na TV digital

Logo culturalivre.org.brO governo brasileiro está prestes a decidir se o padrão brasileiro de TV digital vai incluir algum tipo de DRM. Caso se resolva por fazer essa inclusão, o direito das pessoas hoje de fazer uma gravação pode ser proibido. A possibilidade de fazer adaptações, comentários e sátiras, pode ser bloqueado. A possibilidade de fazer programas e equipamentos que interajam diretamente com o sinal de TV poderia ser permanentemente restrita a empresas autorizadas. Inovações como gravadores digitais não poderiam ser empregadas sem a sanção das empresas de mídia. Ficaríamos reféns dessas empresas, tanto das nacionais quanto das estrangeiras, e haveria um monopólio da fornecedora de tecnologia.

O alerta é dado por Paula Martini do Projeto Cultura Livre e do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV.

O CTS fez um relatório sobre as consequencias dessa regra, que é descrito
em uma matéria da Folha de São Paulo, mas eu não consegui achar o relatório para ler.

Além disso, Renato Golin compara uma regulação desse tipo a uma legislação quântica (em inglês).

Esse é um daqueles assuntos para os quais deveríamos ser consultados ou em que devemos apresentar nossa opinião. É uma situação em que a cultura é refém de grupos que economistas chamam de Rent Seekers: indivíduos, organizações ou firmas que buscam ganhar dinheiro manipulando o ambiente econômico ou legal ao invés de lucrar através de negócios ou a produção de riqueza.

Tradução da Microsoft também prestigia Da Correia Fotorreceptora

O Google Discovery anuncia o lançamento de seu novíssimo tradutor on-line, utilizando tecnologia da Systran, somado a tecnologia própria, com suporte a 26 pares de línguas.

Windows Live - From the Web

Eu não pude me conter e testei a tradução que dá nome a este blog e, de fato a Microsoft também nos prestigia: “from the web” é traduzido como “da correia fotorreceptora“. Outras variações como “web master” também dão resultados interessantes.

Que tipo de processo de desenvolvimento pode permitir que um erro desse tamanho persista por mais de 10 anos? Como é possível que a mesma base de língua portuguesa seja vendida para três grandes empresas diferentes sem essa correção básica, e sem melhora perceptível de qualidade em todo esse tempo?

Eu imaginava a princípio que a Digital tivesse comprado uma base antiga para o venerável Altavista Babelfish e nunca tivesse atualizado. Mas depois, quando o Google lançou suas ferramentas de tradução com os mesmos erros, e agora que a Microsoft fez a mesma coisa, eu acho possível perder toda e qualquer esperança de que o suporte a língua portuguesa seja melhorado nessa linha de produtos.

A única possibilidade é que não exista ninguém dando manutenção. Suporte a língua portuguesa é um item a marcar em uma planilha de recursos, e está tão bom hoje quanto vai ser em qualquer momento no futuro. Ele está tão bom quanto a Systran acha razoável deixar.

Qualquer sistema de tradução que preste para a Língua Portuguesa vai precisar vir de outra fonte.

Outra ilusão visual

Viscog - ilusão de óticaMais uma daquelas ilusões que ensina a alguns cientistas alguma coisa sobre como as pessoas visualizam cenas, e como funciona a nossa atenção. A idéia aqui é a seguinte: abra o endereço http://viscog.beckman.uiuc.edu/grafs/demos/15.html. Ele vai carregar um applet java meio grande, mas quando terminar de carregar, aperte o play e conte o número de vezes que um jogador do time branco passou a bola para outro.

Depois de terminado, veja novamente. Algumas pessoas conseguem perceber algumas coisas a mais na segunda vez. Não é revolucionário, mas eu achei desconcertante.

Update: Corrigi o link, que estava quebrado (obrigado, Avi).

Update 2:  Em uma lista de discussão, alguém mencionou que participou de estudos desse tipo e que a questão é que quando os olhos estão em movimento, todo o resto é ignorado pelo mente, sem que percebamos. Ele conta que havia uma apresentação na qual as pessoas da platéia deviam ficar mexendo os olhos enquanto olhavam para uma tela, e que de repente algumas pessoas começavam a rir sem que as ele soubesse o porquê. Depois ele eventualmente percebia que partes grandes da tela mudavam e outras pessoas, cujos olhos estavam passando por outras partes da tela não viam.

Via Science Blog


Redefinindo os dicionários

TED - Ideas Worth Spreading Grande apresentação (em inglês) de Erin McKean sobre as mudanças dos dicionários com a computação, mas especialmente com a Internet: Redefining the dictionary.

Ela faz comparações, usa metáforas, sinédoques, paráfrases e palavras complicadas para explicar o que um lexicógrafo faz e como a Internet pode mudar isso com o fim das limitações de tempo e com o fim das limitações do papel, em meio a piadas, novas definições e associações inesperadas:

“Serendipidade é quando você encontra coisas que você não procurava porque encontrar coisas que você procurava era tão absurdamente difícil.”

Erin é conhecida entre outras coisas pela lei de McKean, que é uma das variações da seguinte regra universal:

“Qualquer correção da fala ou escrita de outras pessoas vai conter pelo menos um erro de gramática, ortografia ou tipografia”.

Vale a pena assistir, são 16 minutos.

Update: eu tinha colocado o video errado. Corrigido agora.

Barões da mídia

Logo do Estadão

No debate do Estadão alguém fez uma pergunta não respondida que era mas ou menos assim: “quando um blogueiro recebe para pagar, ele não está sendo como um barão da mídia? Os blogs democratizam ou reproduzem e reforçam o poder dos barões da mídia”.

A discussão acabou se desviando para a separação igreja-estado em jornais, e ficou faltando uma resposta sarcástica, e mais ainda uma resposta razoável.

Não faz sentido comparar blogs, que são em sua grande maioria independentes, com grandes grupos empresariais com interesses econômicos poderosos e com histórico de manipulação das informações. Os chamados barões da mídia tradicional tem mais poder quanto menos alternativas existem, e blogs são alternativas ao poder constituído.

Bloggers sendo anti-éticos é muito menos grave do que um grande jornal ou grande revista sendo anti-ética. Mas é óbvio que isso não significa que bloggers são livres para trair a confiança dos seus leitores. .

O cacoete da relevância


Logo Estadão

Eu não consegui ir ao debate do Estadão e me arrependi disso. Mas vi o post do Edney (bem-vindo, Edney) e estou agora vendo a íntegra aqui.

O debate foi estranho, sobre um assunto estranho e o tema, falacioso. O próprio nome, “Responsabilidade e Conteúdo Digital” já é uma armadilha, porque tenta focar em um ponto que é considerado fraco dos blogs, o de responsabilidade, que apenas um jornal teria. Continuou pela parte da qualidade do leitor, que é uma continuação, parece, de um tema comum no Blogcamp: a formação e qualificação dos leitores.

Permeando boa parte da discussões está uma visão de mundo elitista, na qual se critica de um lado os bloggers por “produzirem muita porcaria” e os leitores por “consumirem muita porcaria” sem que se reconheça qualquer valor nas manifestações públicas individuais. Essa é uma opinião pré-Internet que, na minha opinião, vem de um cacoete desenvolvido em um mundo de escassez no qual os custos são altos e a massificação é uma necessidade econômica, mas que não se aplica mais quando qualquer um pode ser publicado com custos baixos.

Antes da Internet, as palavras precisavam ser escritas em número certo, editadas, formatadas, impressas e distribuídas, e isso é um trabalho difícil, que exige uma operação industrial que não pode ser efetivamente montada por indivíduos. Grande parte do prédio do Estadão da Marginal Tietê é tomado por uma grande área industrial, destinada a imprimir os jornais onde se entra somente com tapa-ouvidos. Ao mesmo tempo, um andar inteiro é dedicado aos jornalistas e outros a vendedores de anúncios, entrega, telecomunicações, sistemas, diagramação, organização, restaurante, recursos humanos e tem ainda todas as filiais em diversas cidades.

Esse trabalho exige uma organização enorme, e quanto maior essa organização, mais fácil é para ela competir contra outras organizações, por motivos econômicos. Essa vantagem levou, com o passar das décadas, à concentração econômica, ao ponto em que há apenas um grande jornal por cidade, com algumas exceções, inclusive de alguns de alcance nacional que conseguiam conviver na mesma cidade (Estadão e Folha, Jornal do Brasil e O Globo). Princípios similares levaram à concentração das revistas, das rádios e das TVs dentro de seus nichos.

De um lado, essa concentração deu a esses meios de comunicação importância em controlar a comunicação, para bem ou para o mal. Por outro lado, deu a eles capacidade econômica para contratar e sustentar equipes grandes e profissionais de alto nível, e garantiu a esses profissionais um público maior de leitores e portanto maior impacto em seus textos, mas como o espaço é limitado, é feita uma escolha e somente se publica o que se considera relevante para uma faixa ampla da população. O lema do New York Times, afinal, é “All the news that is fit to print“.

À medida em que a existência de grandes grupos industriais deixa de ser necessária para uma operação de informação, muitas vozes que estavam caladas por falta de oportunidade – e por não serem consideradas dignas de publicar – começam a poder ser ouvidas. Acontece que quem está esperando manifestações típicas daquele mundo de escassez e grandes jornais vê, por seu prisma, uma catástrofe, com hordas de bárbaros destruindo a civilização. Nesse debate, e em outros, se vêem blogs como se fossem jornais ou como se eles precisassem se adaptar às regras e limitações que surgiram no mundo dos jornais, e isso não é verdade.

Blogs tem custo baixo, pouca ou nenhuma receita e não tem normalmente uma grande operação econômica por trás. São opinião pura. O lema como um todo pode ser “All the news“, porque não é mais necessário se preocupar com se um artigo ou matéria cabe ou não, em todos os sentidos de “caber”. Não é mais necessário publicar somente algo que tenha apelo universal. É possível publicar o que tem apelo local, regional ou tópico, ou mesmo o que não tem apelo nenhum.

Enquanto nos jornais existe uma competição pelo espaço limitado que dá à relevância geral e ao retorno econômico papéis cruciais na decisão sobre o que vai ser apresentado ao leitor, na Internet somente a relevância e a visibilidade para cada leitor contam. Lembrem-se do velho axioma: “toda notícia é local”.

Portanto, no debate, ao mesmo tempo em que se reclamava da irrelevância e baixa qualificação de blogs pessoais, se ignoravam os defeitos do jornalismo diário (que está longe de ser infalível). Além do que, em um meio com tantas vozes quanto a chamada blogosfera, utilizar pequenos blogs pessoais como referência sobre o que é um blog é como utilizar folhetos de anúncios de trabalhos de macumba e amarração para o amor como representativos da mídia impressa: pode ser feito, mas não sem uma boa dose de desonestidade.

W00t!1!!1! First post!

Ok. Aqui está o blog. As pessoas agora vão parar de me cobrar por não ter um blog? Podemos passar para a próxima fase, que é as pessoas me cobrarem por não postar com frequencia suficiente para isso realmente valer a pena?

Bem, sério, o motivo para isto é discutir coisas que são importantes para mim, para ser ouvido e participar de discussões das quais eu não tenho como participar pela falta de um blog. E meu plano atualmente é fazer dois blogs: um em português e outro em inglês, e ir postando em um ou outro de acordo com o que eu acho que o público de cada um deles é.

Eu tenho ciência de que o lay-out está tosco, e que tem muitos textos que não estão traduzidos, mas por favor, tenham paciência comigo. Pretendo ir melhorando essas coisas com o tempo e fazendo experiências com o wordpress. Até lá, não se assustem se visitarem o site e ele estiver quebrado. Não desistam dele, por favor.

Obrigado a todos, vou estar aqui a semana toda.