Heads Up: Mostra de Cinema no Cinematógrafo

Os cinéfilos podem estar interessados na cobertura da Mostra que a Bibi está fazendo no Cinematógrafo e no twitter. Ela está com uma credencial permanente integral, assistindo a dezenas de filmes e comentando para você poder assistir somente aos melhores.

Infelizmente, devido ao trabalho, eu vi apenas uns 3 filmes até agora, mas foi ela que escolheu, e foram todos bons.

Os plágios e Plágios

Malcolm Gladwell

É interessante nas discussões na lista blogosfera o quanto se volta ao assunto plágio. Não tem discussão que não caia nisso, e nenhuma em que não haja uma disputa para ver quem odeia mais os plagiadores. Mas com o medo de parecer mole e assim trair seu colegas, diversas coisas diferentes ficam sendo misturadas, e o risco é que atividades legais e produtivas sejam marginalizadas junto com atividades que são imorais e ilegais.

Boa parte das pessoas desconfia do argumento do Creative Commons de que quem escreve se baseia em um histórico e conhecimento pré-existente, e é muito propício que Jon Udell tenha escrito um artigo falando sobre o assunto, no qual ele procura a origem de uma citação feita em um blog, e descobre que é muito mais fácil encontrar a origem de uma citação hoje em dia. No meio, ele cita um excelente artigo de Malcolm Gladwell (em inglês) sobre a experiência de ter um artigo utilizado em uma peça de sucesso, e como isso o fez alterar a forma de pensar sobre o plágio em si:

Palavras pertencem à pessoa que as escreveu. Há poucas noções éticas mais simples que esta, particularmente enquanto a sociedade dedica mais e mais energia e recursos para a criação de propriedade intelectual. Nos últimos 30 anos, leis de copyright foram reforçadas. Tribunais ficaram mais propensos a conceder proteção a propriedade intelectual. Lutar contra a pirataria virou uma obsessão de Hollywood e da indústria fonográfica, e, nos mundos da academia e editorial, o plágio passou de ser más maneiras literárias para algo mais próximo de um crime.

[…]

Eu tinha trabalhado em “Damaged” ao longo do outono de 1996. Eu visitava Dorothy Lewis em seu escritório no Hospital Bellevue e assistia às fitas de suas entrevistas com assassinos em série.

[…]

Eu enviei um fax a Bryony Lavery:
Eu fico contente em se a fonte de inspiraçnao para outros escritores, e se você tivesse pedido a minha permissão para citar, mesmo liberalmente, a minha peça, eu teria prazer em autorizar. Mas tomar material, sem a minha aprovação, é roubo.

[…]
Então eu consegui uma cópia do roteiro de “Frozen”. Ele tirou o meu fôlego. Eu sei que isso não devia ser uma consideração relevante. Mas era: ao invés de sentir que minhas palavras tinham sido tiradas de mim, eu senti que elas tinha se tornado parte de uma causa maior.

Ele conta, então, diversos casos de plágio e acusação de plágio, em livros, jornais e música, como um em que os Beastie Boys foram acusados de copiar 4 notas sampleadas, pelas quais, aliás, eles tinham pago, ou outro, em que o autor do Fantasma da Ópera, Andrew Lloyd Webber foi acusado de plágio por causa de uma sequência, que ele mesmo já tinha usado em outra composição, anos antes do acusador, ou sobre o caso de Rod Stewart, cuja música “Do Ya Think I’m Sexy” tem um refrão idêntico ao de Taj Mahal do Jorge Benjor, que foi lançado antes.

Claro que também é bom citar um caso contrário, de um brasileiro acusado de plagiar um americano, como o caso que Tinhorão usa como evidência de que a Bossa Nova não tinha nada de original: O Samba de Uma Nota Só, cantado por Sarah Brightman, sob o nome de Mister Monotony e composto por Irving Bell, em 1947, ou uns 10 anos antes de Tom Jobim.

O artigo de Malcolm Gladwell vale a pena ler, no mínimo para permitir uma reflexão sobre o quanto a criatividade exige de uso de conteúdo criado por outros, e finalmente sobre o quanto nós gostaríamos de sacrificar de liberdade criativa para endurecer leis e comportamentos, simplesmente porque estamos todos indignados com os splogs.

Splogs não participam dessa alimentação criativa e é difícil de entender porque alguns acham que adotar normas super restritivas de licenciamento de conteúdo vão conter splogs, que simplesmente não se importam com qual a licença que o autor adotou para o conteúdo. Existem bons argumentos e boas idéias por trás do movimento do Creative Commons, e essas idéias eu gostaria que todos os blogueiros entendessem.

Juca Kfouri, censura prévia e SLAPPs

Juca Kfouri, foto do blogIdelber Avelar chama para a luta contra uma decisão judicial que mostra o quão longo é o caminho até que o nosso sistema legal possa entender e pesar até mesmo os princípios democráticos mais básicos.

Juca Kfouri criticou várias vezes o deputado estadual Fernando Capez (PSDB-SP). Segundo Juca, Capez não teve sucesso em conter as brigas de torcida, mas se elegeu graças a notoriedade obtida com essa campanha. Ao apresentar suas opiniões, ao relatar fatos, Juca Kfouri estava fazendo seu trabalho, nada mais, nada menos. Mesmo assim, uma decisão judicial proferida pela juíza Tonia Yuka Kôroko proibiu-o de “ofender” o deputado, sob pena de multa de R$ 50.000 após ação movida pelo deputado, que já foi promotor. Segundo Juca,

Recorri ao Tribunal de Justiça de São Paulo, mas o desembagador Luiz Antônio de Godoy negou meu pedido para que a liminar fosse cassada.

Argumentou que sou experiente o suficiente para não ofender o deputado.

Existem motivos para haver uma proibição constitucional da censura prévia pelo estado. E o motivo é impedir que aconteça exatamente o que se tentou nesse incidente: que críticas contra os poderosos sejam amordaçadas. Quem é poderoso: um deputado, um presidente, um juiz, um policial, um ministro, deve ter menos proteção contra críticas que um cidadão comum. O deputado se ofendeu, mas às vezes as pessoas se ofendem com a verdade, e é do interesse da sociedade ouvir críticas a figuras públicas, mesmo contra os interesses de quem se acha ofendido. Faz parte da democracia conviver com o contraditório e com a crítica.

Juca Kfouri não tem a obrigação de se adequar aos princípios de civilidade que o impediriam de criticar. Se nossas leis contra a calúnia, a injúria e a difamação estão aí para impedir o exercício da liberdade de expressão, precisamos fazer uma grande reforma dessas leis. Mas eu nem creio que tenha sido esse o caso.

Nos EUA existe um nome para esse tipo de ação iniciada pelo Deputado: SLAPP (Strategic Lawsauit Against Public Participation – Ação Estratégica Contra Participação Pública). São ações feitas para silenciar críticos e existem leis contra isso em diversos estados.

É lamentável que o judiciário brasileiro tenha se permitido usar novamente e novamente para uma SLAPP. Assim, ao invés de trazer justiça, o judiciário não faz mais que atuar como ferramenta para manutenção do poder.

A chance de ouvir Yochai Benkler

Yochai Benkler vai participar via video-conferência do ciclo de debates que o Instituto de Estudos Avançados da USP promove sobre o livro “A Riqueza das Redes” no dia 6/12/2007 às 14:30 no Auditório Alberto Carvalho da Silva do Instituto de Estudos Avançados.

O livro é uma análise sobre a produção de cultura e informação, o papel dos blogs, youtube, e a Internet em geral, explica economicamente as consequências do surgimento desses novos meios para a economia, cultura e política, e expõe os interesses e os preconceitos envolvidos. O livro é leitura obrigatória para todos os interessados em jornalismo, economia, análise de investimentos, cultura, tecnologia, negócios, blogs, política, programação, web design e Internet.

via Não Zero

Não existe bolha do Adsense

Tecnocracia

O Manoel Netto do Tecnocracia escreveu um post defendendo a tese de que
A “Bolha AdSense” vai estourar. Eu discordo, e acho que o artigo do Manoel confundiu a parte contra o todo e fiquei com vontade de discordar.

Primeiro, minhas credenciais: sou um grande anunciante no Adwords e um grande editor do Adsense. Sobre o Adsense, se um dia eu acordasse de saco cheio, poderia deixar de lado a área de hospedagem, demitir todo mundo e viver somente dos anúncios no Inforum, e tanto eu quanto meu sócio poderíamos ter uma vida bastante confortável. Não vamos fazer isso, claro, mas ganharíamos o suficiente. Ao invés disso, gastamos uma quantia significativa, ainda maior, em anúncios do Adwords (além de outros meios) com o objetivo de transformar a Insite em uma das maiores empresas de hospedagem do Brasil

E é tendo essa experiência nas duas pontas, que eu posso dizer que não existe “Bolha Adsense” para estourar. Pode existir uma bolha de sites chamados “caça-paraquedistas do momento”, ou seja, sites interessados em atrair público escrevendo artigos sobre assuntos da moda ou do momento, mas eu acho que não existe, e acho que eles não são tão significativos, de qualquer forma. O grosso das buscas, e o grosso da receita, não acontece em artigos que falam sobre assuntos da moda, mas em artigos antigos.

Se essa “bolha” vai estourar, não vai ser porque alguém vai fazer algo para impedir, mas sim porque a competição por esses termos vai ser tão grande, que a maior parte das pessoas que adotam essa estratégia vai ganhar pouco e vai desistir.

O Adsense funciona porque ele junta milhares de anunciantes e milhares de editores diferentes, com interesses diferentes, e é preciso levar em conta os diversos tipos e objetivos de anúncios, e os diversos tipos de editores de sites e suas estratégias. Eu acho que sempre é possível encontrar uma combinação de anunciantes e editores, e mesmo os sites mais caça-níquel às vezes são alvos interessantes para anúncios e sempre devem ter alguma receita mesmo que mecanismos como a otimização por conversões.

O que não pode é achar que essa receita é tão grande que ofusca todo o resto, que está por baixo da superfície, mas é muito maior em volume e em importância. Essa parte, dos milhares de anúncios sobre milhares de assuntos, devem crescer cada vez mais e ainda podem fazer uso do escudo do Teorema de Coase (em inglês) e da resultante eficiência econômica para garantir sua estabilidade, já que os custos de transação são desprezíveis.

Posts pagos sem identificação são ilegais

Eu mencionei isso em um comentário em um post no Interney sobre uma discussão ocorrida durante Barcamp Rio (no qual eu não fui). Mas já que o assunto surgiu também durante o Blogcamp São Paulo e durante o debate do Estadão, mas não custa repetir: posts que são publicidade precisam ser identificados como tal. Isso é uma questão de respeito ao leitor, e à lei.

O Código de Defesa do Consumidor diz o seguinte:

Art. 36. A publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil e imediatamente, a identifique como tal.

Isso surgiu como forma de proteger os leitores quando colocam o chapéu de consumidores. Não é só porque os jornalistas acham que estão em uma torre de marfim, não é “apenas” porque isso mina a credibilidade do autor. É porque pode causar prejuízo a outras pessoas, que assumem que é opinião ou notícia algo que na verdade é publicidade.

Direito 2.0

Tecnocracia

Um “pouco” atrasado, eu vejo que o Manoel do Tecnocracia e do BlogCamp falou no dia 5 sobre Processos judiciais em tempos de Web 2.0.

É óbvio, notório e público que a nossa legislação ainda não sabe lidar com a Internet. Se soubesse, não presenciaríamos o ‘fechamento’ do YouTube para endereços brasileiros, não presenciaríamos a exclusão de comunidades do tipo ‘eu odeio o Barrichello’ do Orkut, não presenciaríamos o caso Xô Sarney – acatado por vários juízes, só uma jornalista acumula mais de meio milhão em multas do Tribunal Eleitoral. Isso nos dá medo e insegurança, ao mesmo tempo que revolta.

Não podemos continuar presenciando casos como esses sem fazer absolutamente nada. Ou lutamos contra esses absurdos ou ensinamos as pessoas como lidar com a Internet, a liberdade que ela propicia e a responsabilidade que herdamos com essa liberdade. Que tal fazermos as duas coisas? Se somos os responsáveis pela batizada Web 2.0, vamos ajudar a criar o Direito 2.0.

Eu assino embaixo. Esse foi um dos assuntos em discussão no último BlogCamp e acho importante que todo mundo que produz conteúdo ou que permite que outros gerem conteúdo estejam cientes da importância para o nosso futuro de ter leis apropriadas. Não existe motivo para a nossa lei, em especial, proteger os fortes e os poderosos contra os fracos e os cidadãos comuns. Seria bom ver isso discutido em todos os próximos eventos.

No BarCamp do Rio eu esperava participar de ótimas discussões, mas o trabalho me chama aqui mesmo em São Paulo.

TODO não é para jacu

David Allen: Getting Things Done, GTDO Cardoso diz em um post que TODO é pra jacu. Ele comenta sobre a dificuldade que é fazer todas as tarefas que há para fazer no dia, e como priorizar.

Ele reclama e cita diversas estratégias: apenas tarefas pequenas, fazer primeiro as complicadas, fazer as mais urgentes, atribuir prioridades, fazer aleatoriamente e empurrar com a barriga. Segundo ele, nenhuma funciona, e ele vai tentar dividir o dia em pedaços e fazer uma tarefa em cada pedaço.

Ele fala que já leu os livros de auto-ajuda para empresários, que não resolveram muita coisa. Mas na verdade, o problema é que ele não leu o livro de auto-ajuda certo. Ele foi escrito por David Allen e se chama Getting Things Done em inglês e Produtividade Pessoal ou A Arte de Fazer Acontecer em português. Ele ensina uma técnica de organização para produtividade que é realmente muito boa e eficiente. Esse livro mudou a vida de mais de uma pessoa que eu conheço, eu incluso.

O melhor é mesmo ler o livro para ter uma idéia, mas os princípios funcionam até para alguém que é naturalmente desorganizado como eu e como metade das pessoas mais inteligentes que eu conheço:

  • Trabalhe com caixas de entrada;
  • Processe os itens dessas caixas de entrada constantemente, tomando decisões claras sobre: fazer uma tarefa imediatamente, colocar na lista de tarefas, arquivar, deixar para um dia futuro, delegar ou jogar no lixo;
  • Tenha um arquivo de referência à mão, bem organizado mas fácil de fazer e manter;
  • Mantenha uma ou mais listas de tarefas, apropriadas ao contexto;
  • Revise de tempos em tempos para garantir que as coisas estão andando bem;
  • Tire da cabeça as preocupações por não estar fazendo algo e confie na sua lista de tareas. Isso reduz muito o nível de stress. Não mantenha nada na cabeça;
  • Quebre todas as tarefas em pequenas ações realizáveis. Exemplo: ao invés de “cuidar do seguro do carro”, adicionar a tarefa “ligar para o corretor e pedir uma cotação para o seguro do carro”. Significa que quando você estiver lendo a lista de tarefas, você vai saber na hora que só precisa pegar o telefone, não precisa gastar um momento a mais pensando, cada vez que ler a lista, sobre quais os próximos passos necessários para cada tarefa.

A principal lição do livro, eu diria, é a de perder a paranóia de estar esquecendo de coisas que você precisa fazer. Tenha uma lista de tarefas e confie nela. Só isso já deve ter evitado o surgimento de muitos cabelos brancos para mim.

Agora, se você, depois de adotar isso, não conseguir realizar tudo que você precisa nos prazos que precisa, então é provável que você simplesmente tenha mais coisas para fazer do que você tem capacidade, e nesse caso você precisa de ajuda de outras pessoas, ou precisa abrir mão mesmo.

Isso sim é blog de nicho

No dodos

A Bibi tem vários blogs. Além do Bibi’s Box, ela tem também o Cinematógrafo, em Português sobre cinema, o Videos with Bibi, com filmes em domínio público e finalmente o blog de nicho ecológico Dodo Blog.

O que dizer de um blog que fala apenas de Dodos, pássaros parentes dos pombos mundialmente famosos por sua mansidão, doçura, seu tamanho e por sua extinção nas mãos de navegadores holandeses, mas em compensação fala de tudo sobre eles. Tem desde artigos científicos, ilustrações, e até um artigo especial para o Talk like a pirate day.

Sobre ciência, tem essa informação importante e óbvia:

Little known to science, the Loch Ness Monster is not, in fact, a plesiosaur or a brontosaurus or any other saurian silliness. That would be ridiculous. Dinosaurs are extinct.

Obviously it’s a dodo.
Loch Ness Dodo

Google acabou com sites por assinatura?

NYT Logo

No Blog de Finanças da revista Portfolio, Felix Salmon afirma que foi o Google que acabou com o Times Select. De certa forma, ele está certo, ou talvez seja melhor dizer que foi um fim esperado com a Internet como funciona hoje em dia.
O Times Select foi o produto criado pelo New York Times para rentabilizar seu site há dois anos. O acesso era liberado durante um período de, creio, 1 semana e após esse período, somente pagando pela assinatura. Além disso, algumas matérias especiais, editoriais, op-eds e textos de colunistas eram exclusivos de assinantes.

A empresa conseguiu um faturamento de cerca de 10 milhões de reais por ano, mas mesmo assim resolveu, esta semana, abrir o acesso novamente. O motivo: o tráfego vinha principalmente de mecanismos de busca, e não diretamente. Esse tráfego, do qual o jornal abria mão por deixar o conteúdo atrás de um muro, era perdido. Com o crescimento da Internet, torna-se possível ganhar mais dinheiro fornecendo conteúdo de graça do que cobrando por ele, paradoxalmente.

Acontece que para ganhar tráfego, você precisa de reputação virtual, i.e., links de outros sites. Quando o NYT fechou o acesso, as matérias do NYT deixaram de ser repassadas e de receber links em blogs e artigos. Ou seja, perderam “relevância” na área na qual as discussões mais crescem, e que ocupa fatia cada vez maior do tempo das pessoas.

Brad DeLong também completa que as próprias instituições perdem importância, e que as pessoas que escrevem ganham cada vez mais valor, graças a essa reputação surgida da facilidade dos mecanismos de busca.

Agora, falta o mais importante site pago do mundo, Wall Street Journal fazer o mesmo, o que bem pode acontecer já que seu novo e infame dono, também é dono do Myspace.

via Brad DeLong.

Blog em pesquisa científica?

Wikimedia commons - cruzamento de dadosNo Blog da Edelman a Thiane pergunta: blogs podem embasar teorias científicas? A resposta, como sempre, é “isso depende”.

Existem diversos tipos de ciência, diversos tipos de teoria e diversos tipos de pesquisa, e para algumas faz sentido e para outras, não.

Para pesquisas estatísticas, de estudo de populações, a resposta é não para análises quantitativas, a não ser que você consiga uma amostra não viciada ou tenha informações adicionais suficientes para separar o joio do trigo. Para análises qualitativas a resposta é sim, se você fizer com cuidado, porque embora uma entrevista ou um relato pela pessoal possa ser tão mentiroso quanto uma entrevista ou relato pela Internet, se você faz pessoalmente existem outras indicações pessoais que podem ajudar a filtrar pessoas que não existem, por exemplo, ou que estão tentando enganar você. Se o pesquisador tomar os cuidados devidos, entrevistas via MSN podem ser tão boas quanto entrevistas pelo telefone, e listagem de número de amigos em uma ferramenta de rede social pode ser tão útil quanto a pesquisa de número de amigos em uma rede social real.

Isso, claro, se você considera ciências sociais como ciências de verdade e muitas pessoas simplesmente não aceitam isso como verdade, porque para uma área do conhecimento ser conhecida como ciência, existem algumas regras que precisam ser seguidas.

De qualquer forma, mesmo que você possa utilizar, não significa que se possa colocar uma enquete em um site e esperar que o número reflita “a opinião do internauta”. Em toda pesquisa você precisa fazer muito trabalho e nenhum tipo de pesquisa recebe um passe livre que evite fazer análises estatísticas sofisticadas. Para serem aceitas, precisam ser publicadas em uma revista de renome, tendo sido submetida a uma revisão feita por pares. Muito cuidado com qualquer pesquisa científica que não tenha passado por uma revisão dessas, porque ela pode não ser científica de qualquer forma.

O nome do papagaio é Alex

llustrations by Andrew Kuo, Photograph by John Woo

De volta ao assunto do post sobre o nome do papagaio levantado no debate do Estadão do qual participaram alguns jornalistas e blogueiros, como o Edney, informo com pesar que o papagaio Alex morreu precocemente aos 31 anos e foi homenageado pela revista de divulgação científica Seed com a republicação on-line da matéria (em inglês) que falava sobre suas habilidades cognitivas e a discussão sobre sua inteligência (ou falta dela).

Update: Matéria da AP sobre o falecimento.

Os que “Subtraem e se apropriam arbitrariamente dos direitos”

Balança da justiçaSegundo o advogado Sydney Sanches, não existe motivo para tanta celeuma e os que defendem que não seja incluída a especificação de DRM no Sistema Brasileiro de TV digital estão a favor dos que “subtraem e se apropriam arbitrariamente dos direitos intelectuais“.

Em matéria publicada em O Globo e reproduzida no A2K, o advogado, presidente da Comissão de Direito Autoral, Direitos Imateriais e Entretenimento da OAB/RJ, cita a revolução francesa para justificar que o governo deve obrigar todas as fabricantes de equipamentos que quiserem captar sinais a pagar dinheiro para licenciar tecnologia com o objetivo de dar às emissoras controle completo sobre tudo que transmitem sobre o espectro público pelo qual não pagaram.

Além disso, o DRM daria “a garantia de que não haveria violação aos direitos dos autores, intérpretes, atores, diretores, roteiristas, cenógrafos etc.”, o que na minha opinião seria maravilhoso, já que, hoje em dia eles normalmente trabalham sob contrato e não possuem direitos.

Segundo ele, devemos também tomar cuidado, pois “O fácil discurso de defesa ao consumidor ou de garantia da liberdade não podem servir para descartar o direito dos criadores e de toda a indústria criativa, sob pena de aniquilarmos com toda a capacidade criativa nacional.”. Consequência óbvia, pois aparentemente toda a capacidade criativa nacional é a que está na TV. Nada fora dela é realmente criativo, e, pelo visto, somente dando a emissoras de TV o controle sobre o conteúdo de outros, esses que se submetem vão poder produzir alguma coisa.

Segundo ele, não existiria problema também porque serão permitidas cópias ilimitadas em qualidade de DVD, mas não em qualidade digital. Vou então tentar explicar direitinho, porque parece que ele não entendeu a crítica.

Existem diversos problemas com DRM na TV digital, mas ele não é pago para entender esses problemas. Um dos pontos é que as pessoas deveriam poder guardar cópias pessoais para ver diversas vezes e até fazer uma biblioteca pessoal. As pessoas também deviam poder extrair pedaços e utilizar em produções próprias, sem a necessidade de pedir autorização ou pagar para alguém. As pessoas não deviam de forma alguma ser impedidas de gravar conteúdo que está em domínio público, porque isso é direito do público sendo apropriado pela emissora. Além disso, equipamentos baseados em software livre deveriam poder ter acesso a esses sinais, a certificação de equipamentos não devia ser necessária, e sendo necessária, não devia ficar na mão de uma empresa ou grupo econômico sem levar em conta o interesse do público e dos pequenos produtores. Lembrem-se: o espectro é público, não é das emissoras. Nós é que temos que definir as condições e não nos defender das regras impostas por elas.
Podemos começar a conversar sobre a possibilidade de DRM quando se começar a falar sobre as pesadas multas e a responsabilidade civil das emissoras por “proteger” conteúdo sobre o qual não tem direito, ou pelas emissoras tomarem a cultura como refém eternamente. Sobre punições, multas e responsabilização civil para o consórcio de DRM por qualquer bloqueio a competição e ao software livre, e quando as emissoras pararem de me tratar como se eu fosse um delinquente ao invés de um cliente.

Não são os que querem a cultura livre que estão querendo mudanças nas regras. São grandes grupos de comunicação que resolveram tomar nossos direitos e nossa liberdade de expressão. Nós é que estamos resistindo aos Rent Seekers

Relacionado:

Faça sua parte: discuta com seus amigos, escreva sobre isso!

via A2K.

Barões da mídia

Logo do Estadão

No debate do Estadão alguém fez uma pergunta não respondida que era mas ou menos assim: “quando um blogueiro recebe para pagar, ele não está sendo como um barão da mídia? Os blogs democratizam ou reproduzem e reforçam o poder dos barões da mídia”.

A discussão acabou se desviando para a separação igreja-estado em jornais, e ficou faltando uma resposta sarcástica, e mais ainda uma resposta razoável.

Não faz sentido comparar blogs, que são em sua grande maioria independentes, com grandes grupos empresariais com interesses econômicos poderosos e com histórico de manipulação das informações. Os chamados barões da mídia tradicional tem mais poder quanto menos alternativas existem, e blogs são alternativas ao poder constituído.

Bloggers sendo anti-éticos é muito menos grave do que um grande jornal ou grande revista sendo anti-ética. Mas é óbvio que isso não significa que bloggers são livres para trair a confiança dos seus leitores. .

O cacoete da relevância


Logo Estadão

Eu não consegui ir ao debate do Estadão e me arrependi disso. Mas vi o post do Edney (bem-vindo, Edney) e estou agora vendo a íntegra aqui.

O debate foi estranho, sobre um assunto estranho e o tema, falacioso. O próprio nome, “Responsabilidade e Conteúdo Digital” já é uma armadilha, porque tenta focar em um ponto que é considerado fraco dos blogs, o de responsabilidade, que apenas um jornal teria. Continuou pela parte da qualidade do leitor, que é uma continuação, parece, de um tema comum no Blogcamp: a formação e qualificação dos leitores.

Permeando boa parte da discussões está uma visão de mundo elitista, na qual se critica de um lado os bloggers por “produzirem muita porcaria” e os leitores por “consumirem muita porcaria” sem que se reconheça qualquer valor nas manifestações públicas individuais. Essa é uma opinião pré-Internet que, na minha opinião, vem de um cacoete desenvolvido em um mundo de escassez no qual os custos são altos e a massificação é uma necessidade econômica, mas que não se aplica mais quando qualquer um pode ser publicado com custos baixos.

Antes da Internet, as palavras precisavam ser escritas em número certo, editadas, formatadas, impressas e distribuídas, e isso é um trabalho difícil, que exige uma operação industrial que não pode ser efetivamente montada por indivíduos. Grande parte do prédio do Estadão da Marginal Tietê é tomado por uma grande área industrial, destinada a imprimir os jornais onde se entra somente com tapa-ouvidos. Ao mesmo tempo, um andar inteiro é dedicado aos jornalistas e outros a vendedores de anúncios, entrega, telecomunicações, sistemas, diagramação, organização, restaurante, recursos humanos e tem ainda todas as filiais em diversas cidades.

Esse trabalho exige uma organização enorme, e quanto maior essa organização, mais fácil é para ela competir contra outras organizações, por motivos econômicos. Essa vantagem levou, com o passar das décadas, à concentração econômica, ao ponto em que há apenas um grande jornal por cidade, com algumas exceções, inclusive de alguns de alcance nacional que conseguiam conviver na mesma cidade (Estadão e Folha, Jornal do Brasil e O Globo). Princípios similares levaram à concentração das revistas, das rádios e das TVs dentro de seus nichos.

De um lado, essa concentração deu a esses meios de comunicação importância em controlar a comunicação, para bem ou para o mal. Por outro lado, deu a eles capacidade econômica para contratar e sustentar equipes grandes e profissionais de alto nível, e garantiu a esses profissionais um público maior de leitores e portanto maior impacto em seus textos, mas como o espaço é limitado, é feita uma escolha e somente se publica o que se considera relevante para uma faixa ampla da população. O lema do New York Times, afinal, é “All the news that is fit to print“.

À medida em que a existência de grandes grupos industriais deixa de ser necessária para uma operação de informação, muitas vozes que estavam caladas por falta de oportunidade – e por não serem consideradas dignas de publicar – começam a poder ser ouvidas. Acontece que quem está esperando manifestações típicas daquele mundo de escassez e grandes jornais vê, por seu prisma, uma catástrofe, com hordas de bárbaros destruindo a civilização. Nesse debate, e em outros, se vêem blogs como se fossem jornais ou como se eles precisassem se adaptar às regras e limitações que surgiram no mundo dos jornais, e isso não é verdade.

Blogs tem custo baixo, pouca ou nenhuma receita e não tem normalmente uma grande operação econômica por trás. São opinião pura. O lema como um todo pode ser “All the news“, porque não é mais necessário se preocupar com se um artigo ou matéria cabe ou não, em todos os sentidos de “caber”. Não é mais necessário publicar somente algo que tenha apelo universal. É possível publicar o que tem apelo local, regional ou tópico, ou mesmo o que não tem apelo nenhum.

Enquanto nos jornais existe uma competição pelo espaço limitado que dá à relevância geral e ao retorno econômico papéis cruciais na decisão sobre o que vai ser apresentado ao leitor, na Internet somente a relevância e a visibilidade para cada leitor contam. Lembrem-se do velho axioma: “toda notícia é local”.

Portanto, no debate, ao mesmo tempo em que se reclamava da irrelevância e baixa qualificação de blogs pessoais, se ignoravam os defeitos do jornalismo diário (que está longe de ser infalível). Além do que, em um meio com tantas vozes quanto a chamada blogosfera, utilizar pequenos blogs pessoais como referência sobre o que é um blog é como utilizar folhetos de anúncios de trabalhos de macumba e amarração para o amor como representativos da mídia impressa: pode ser feito, mas não sem uma boa dose de desonestidade.