Levedura e lingüística

Loom - LeveduraCarl Zimmer escreve em seu blog um elogio à levedura. Nesse artigo, ele comenta sobre como, apesar de sem graça, esses microorganismos são muito estutados, e podem trazer luz a muitas questões interessantes sobre biologia e sobre a evolução, o que os torna muito importantes para a área de Evo-Devo, ou Evolução do Desenvolvimento.

Galactose. No artigo, a questão é o mecanismo bioquímico de digestão da galactose. Descobriu-se que a levedura desenvolveu um mecanismo sofisticado, a partir do mecanismo mais simples de antecessores, quando houve uma duplicação do material genético devido a um erro de cópia. Antes da duplicação, as proteínas relacionadas a esse mecanismo eram todas essenciais e não podiam mudar muito sem comprometer a viabilidade dos indivíduos. Com a duplicação surgiu uma cópia do material genético que não era mais fundamental e que, por isso, podia sofrer evolução e um mecanismo mais sofisticado pôde surgir ao longo do tempo. A eficiência do controle da digestão da galactose aumentou em centenas de vezes quando uma cópia de uma proteína passou a atuar, com algumas mudanças, de forma mais eficiente em outra atividade. As leveduras que possuiam esse mecanismo suplantaram as leveduras desprovidas desse mecanismo rapidamente.

VWXYNOT? Comentando o artigo, VWXYNot? menciona dois posts seus, um pouco mais áridos. Em um deles, ela dá mais dados sobre a duplicação, que teria acontecido entre 100 e 200 milhões de anos atrás e cita pesquisas que utilizam essa duplicação para estudar complexos de proteínas interrelacionadas. No outro, ela fala sobre o estudo das regiões sem genes do código genético e na taxa de mudança nessas regiões.

Linguística. Ao ler esse artigo, eu lembrei de um outro recente, em uma área completamente diferente: a lingüística. Sabe-se que regiões do código genético responsáveis pela geração de proteínas vitais ou pela expressão de genes vitais tendem a ter muito menos alterações que regiões pouco importantes para a sobrevivência do organismo. Na revista Nature deste mês um artigo de Mark Pagel, Quentin D. Atkinson e Andrew Meade descreve o mesmo efeito em línguas, notando que palavras muito utilizadas possuem muito menos variação entre línguas de mesma origem que palavras pouco utilizadas. Assim, a palavra “cauda” é “tail” em inglês, “schwanz” em alemão e “queue” em francês, ou seja, completamente diferentes umas das outras, mas a palavra para “dois” é razoavelmente parecida em todas essas línguas, simplesmente por ser mais vital, e portanto menos sujeita a mudanças.

Abaixo o Ciclo de Krebbs. Para encerrar, um artigo da New Scientist fala sobre leveduras também, explicando como as leveduras puderam deixar de lado a respiração aeróbica, que produz muito mais energia (36 ATPs), em troca da produção de álcool (2 ATPs). Leveduras conseguem utilizar oxigênio, mas produzem álcool assim mesmo, ao contrário de alguns organismos aparentados. Isso parece difícil de entender. A produção de álcool precisaria ter uma vantagem competitiva para justificar um comportamento tão estranho. A resposta, o artigo explica, é que a famosa e já citada duplicação de genes permitiu alterações no mecanismo de controle da respiração, e o surgimento de enzimas que permitiam à levedura se alimentar de álcool, com o uso de oxigênio.
Surgiu, então o processo pelo qual a levedura produz álcool a partir do açúcar, gerando pouca energia. O álcool mata microorganismos competidores, o que permite à levedura ficar praticamente sozinha. Posteriormente, quando os açúcares acabam e só existe álcool, ela consome esse álcool, usando oxigênio e produzindo gás carbônico. Por esse motivo, o processo de fermentação para produção de bebidas deve ser interrompido antes que a levedura comece a consumir o álcool de forma significativa. Para isso, recomenda-se beber o líquido antes que isso aconteça, ou manter a bebida dentro de um recipiente selado, sem oxigênio, o que impede o consumo do álcool pela levedura, e permite que a bebida se conserve por décadas.

Creature Comforts e o sotaque brasileiro

Poster creature comforts
Um dos grandes clássicos da Animação é o curta Creature Comforts, do gênio Nick Park, que depois ainda fez Fuga das Galinhas e diversos curtas e um longa dos personagens Wallace and Gromit.

Em Creature Comforts, diversos animais do zoológico são entrevistados sobre sua situação, sobre o clima, comida, se gostam de viver atrás das grades. As entrevistas são reais, feitas com moradores de um conjunto residencial, um asilo de idosos e uma família de moradores em uma loja local e depois colocadas na boca de diversos animais, como ursos polares, tartarugas, uma gorila e um puma. O efeito é fantástico, mas não consegui encontrar nenhuma versão traduzida on-line.

De qualquer forma, em uma tradução talvez se perdesse a melhor parte, que é o sotaque brasileiro do puma reclamando da vida na Inglaterra e falando com saudades do Brasil. A seleção é ambígua, então quando ele fala sobre os ingleses, ele parece estar falando sobre os tratadores, e quando reclama da comida inglesa, ele fala sobre como a comida do zoológico parece mais com comida de cachorro do que comida própria para animais selvagens, reclamando da falta de carne fresca, já que no Brasil somos carnívoros, e não vegetarianos. Ele elogia os avanços tecnológicos ingleses, mas lembra que falta espaço para ele não se sentir como um objeto em uma caixa. O puma era aparentemente um amigo do Nick Park que vivia em um hotel e falava sobra sua própria situação.

Todos os principais erros de pronúncia e vícios de linguagens típicos de nós brasileiros aparecem nesse vídeo, incluindo, diversos “you know”. Além disso, ele pronuncia todas as vogais, incluindo as mudas, como em “In Brazil we are predominantly carnivorous” e “technological advances”, fala “world” como “word” e erra alguns tempos verbais, como em “to swimming” no lugar de “to swim”.

Como as outras animações, Creature Commons foi feito com massinha, um processo complicado e demorado que dá ainda mais crédito à peça. Ao ganhar o Oscar de de Melhor Curta de Animação de 1990, Nick Park conseguiu a proeza de ao mesmo tempo perder pelo filme “A Grand Day Out” com Wallace and Gromit, já que ele foi indicado duas vezes para a mesma categoria naquele ano.

Vale a pena ver esse filme:

AtomFilms.com: Funny Videos | Funny Cartoons | Comedy Central

Tradução da Microsoft também prestigia Da Correia Fotorreceptora

O Google Discovery anuncia o lançamento de seu novíssimo tradutor on-line, utilizando tecnologia da Systran, somado a tecnologia própria, com suporte a 26 pares de línguas.

Windows Live - From the Web

Eu não pude me conter e testei a tradução que dá nome a este blog e, de fato a Microsoft também nos prestigia: “from the web” é traduzido como “da correia fotorreceptora“. Outras variações como “web master” também dão resultados interessantes.

Que tipo de processo de desenvolvimento pode permitir que um erro desse tamanho persista por mais de 10 anos? Como é possível que a mesma base de língua portuguesa seja vendida para três grandes empresas diferentes sem essa correção básica, e sem melhora perceptível de qualidade em todo esse tempo?

Eu imaginava a princípio que a Digital tivesse comprado uma base antiga para o venerável Altavista Babelfish e nunca tivesse atualizado. Mas depois, quando o Google lançou suas ferramentas de tradução com os mesmos erros, e agora que a Microsoft fez a mesma coisa, eu acho possível perder toda e qualquer esperança de que o suporte a língua portuguesa seja melhorado nessa linha de produtos.

A única possibilidade é que não exista ninguém dando manutenção. Suporte a língua portuguesa é um item a marcar em uma planilha de recursos, e está tão bom hoje quanto vai ser em qualquer momento no futuro. Ele está tão bom quanto a Systran acha razoável deixar.

Qualquer sistema de tradução que preste para a Língua Portuguesa vai precisar vir de outra fonte.

Redefinindo os dicionários

TED - Ideas Worth Spreading Grande apresentação (em inglês) de Erin McKean sobre as mudanças dos dicionários com a computação, mas especialmente com a Internet: Redefining the dictionary.

Ela faz comparações, usa metáforas, sinédoques, paráfrases e palavras complicadas para explicar o que um lexicógrafo faz e como a Internet pode mudar isso com o fim das limitações de tempo e com o fim das limitações do papel, em meio a piadas, novas definições e associações inesperadas:

“Serendipidade é quando você encontra coisas que você não procurava porque encontrar coisas que você procurava era tão absurdamente difícil.”

Erin é conhecida entre outras coisas pela lei de McKean, que é uma das variações da seguinte regra universal:

“Qualquer correção da fala ou escrita de outras pessoas vai conter pelo menos um erro de gramática, ortografia ou tipografia”.

Vale a pena assistir, são 16 minutos.

Update: eu tinha colocado o video errado. Corrigido agora.