FISL 9.0

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Essa foi minha primeira participação no FISL depois de anos planejando mas nunca conseguindo. E o resultado é que eu fiquei bastante satisfeito, principalmente com a parte social e de comunidade do fórum.

Para as palestras ténicas, elas são principalmente para iniciantes, então o ideal é aproveitar para tomar contato com diversas áreas e aplicativos diferentes. De qualquer forma, conforme-se com o fato de que você está provavelmente perdendo muito mais coisas do que você está assistindo.

A concentração de boas palestras nas horas de almoço são talvez o maior problema para a saúde dos participantes, mesmo com o restaurante do quarto andar tão próximo e tão bom. De forma geral eu acabei vendo apenas pedaços de diversas palestras, porque no mesmo horário eu tinha 3 ou 4 boas para ver, e eu queria ter um “gostinho” de cada uma.

Diversas comunidades se organizam graças ao FISL. Um exemplo é o pessoal da Associação Python Brasil, que foi criada como um efeito direto de se juntar diversas pessoas que só se conheciam por e-mail, alguns FISLs atrás. Este ano eles tiveram uma trilha própria. Randal Schwartz, do Smalltalk (e ídolo do perl), prometeu uma trilha própria também para o Smalltalk na próxima edição.

Também é interessante para reforçar e divulgar as idéias que existem por trás do software livre. A palestra do Maddog tem exatamente esse efeito. Cada vez mais, além disso, a questão da liberdade, na Internet, e os riscos para a cultura aberta da Internet, que é a mesma que originou a própria Internet, blogs, software livre e a wikipedia.

As que eu vi foram:

  • Kernel Network Layer
  • Uma nova lei autoral para o Brasil
  • Futuros Digitais (talvez a melhor não técnica)
  • Real-time Linux e Real-time Java
  • Apache Harmony
  • Kernel Open Session (Ted Tso)
  • Fantasma do Espectro
  • IPv6
  • A Internet sob ataque
  • Nokia – Iniciativas e Projetos Open Source para Smartphones
  • Ext4 (Ted Tso)
  • Grok
  • Fun and Software Livre (a do Maddog)

Eu planejo falar um pouco mais sobre assuntos específicos do FISL, aproveitendo minhas anotações antes que eu esqueça. Mas já dá para dizer que eu pretendo estar na décima edição em 2009. Junto com os planejados 10 mil participantes, para ver o uplink com a estação espacial, a nova trilha de smalltalk, a prometida participação ampliada da Nokia e Globo.com e quem mais aparecer.

O sucesso do Orkut no Brasil foi presente do Linux

Foto do John Perry Barlow no Orkut

Muita gente ainda discute o sucesso do Orkut no Brasil, e um certo toque mítico surgiu para explicar a dominância brasileira e o gosto brasileiro pela rede social. O Juliano Spyer cita uma entrevista de John Perry Barlow na qual ele relata como no começo do orkut enviou convites para brasileiros como uma experiência e o resultado seria um crescimento fantástico do Orkut no Brasil.

É muito interessante, e eu nem conhecia esse lado da história, e isso talvez seja um indicativo de que isso superestima o papel que o John Perry Barlow teve no crescimento do Orkut. Eu sou um usuário antigo do Orkut. Tão antigo que quando eu entrei eu não conhecia nenhum brasileiro que estivesse na rede social. O Orkut quando iniciou era um fenômeno dentro do Vale do Silício, e as pessoas queriam fazer parte de certa forma para poder se associar aos grandes participantes que faziam tanta coisa, como as linguagens de programação Perl e Python, o Google, o Yahoo, o Linux.

Orkut no começo

Eu fui convidado por um amigo que trabalhava nessa região, ex-CTO de uma empresa do Vale do Silício. Eu imediatamente convidei diversos amigos e colegas de diversos grupos que eu conhecia, mas poucos acabaram entrando  após o meu convite. Esses poucos que aceitaram convidaram outras pessoas das quais provavelmente poucas aceitaram, mas algumas acabaram recebendo convites de mais de uma pessoa, e com isso vários dos que eu tinha convidado inicialmente mas tinha recusado acabou cedendo e entrando. Essas pessoas convidavam outras, que eu também conhecia, e essas por sua vez me adicionavam. Dessa forma eu via a propagação do Orkut, diferentes círculos de amigos que iam aparecendo no Orkut. A imagem que eu tinha na época era de uma forma de gelo que ia se enchendo. Cada vez que um compartimento se enchia, a água passava para outro e lentamente ia enchendo outros e outros.

Os dois mecanismos

Ou seja, eu presenciei dois mecanismos que fizeram o Orkut crescer. O primeiro foi uma certa atração pela exclusividade, que funcionou com os primeiros brasileiros a entrar no Orkut, ligados a acontecimentos e a pessoas do Vale do Silício. O segundo foi simplesmente uma certa pressão pelos pares, ou talvez o instinto gregário dos brasileiros em geral que levou as pessoas a entrar porque os amigos estavam dentro do Orkut.

ACME

Eu duvido que a distribuição de senhas feita pelo John Perry Barlow tenha catalisado a propagação do Orkut. Acho que o caminho principal foi outro: a comunidade Linux, centralizada na Conectiva e, especialmente, no ACME, Arnaldo de Carvalho Melo. Ali tinha uma comunidade de geeks, na qual um núcleo entrou devido ao primeiro mecanismo e o uso  depois se propagou graças ao segundo mecanismo. A Conectiva tinha crescido bastante e por isso tinha membros espalhados pelo país, conhecidos uns dos outros, todos ligados à Internet e de certa forma interligando diversas universidades e grupos de amigos e profissionais de diferentes cidades no Brasil inteiro.

Era um grupo coeso, o que é importante para conseguir o segundo mecanismo de propagação. Pessoas isoladas dificilmente conseguiriam um crescimento inicial tão rápido, especialmente quando é necessário atrair pessoas para quem Larry Wall, Guido Van Rossum, John Perry Barlow e Alan Cox não significam nada. Um grupo distribuído de pessoas que deseja manter contato umas com as outras e com seus ídolos é um núcleo ideal para esse crescimento tão acelerado.

Por que, afinal?

Mas mesmo se a Conectiva não tivesse existido, o Brasil ainda teria sido tomado pelo Orkut, embora levando mais tempo. O motivo é que John Perry Barlow está certo em dizer que era como uma solução super-saturada, esperando uma semente, ou uma leve agitação, para cristalizar. Uma hora ou outra as conexões entre as pessoas iam acabar levando ao surgimento de uma nova rede social importante no Brasil. Talvez tivesse sido a partir de pessoas que eu convidei (no final, boa parte da USP e diversos membros de empresas de tecnologia de São Paulo), talvez a partir de outros grupos de pessoas, mas a verdade é que o fato de que o Orkut dominou o Brasil foi causado simplesmente pelo fato de que não havia concorrentes na época.

A rede que predominava nos EUA era o Friendster, com o Myspace no meio do seu crescimento acelerado, mas nenhum deles tinha entrado no Brasil. Uma outra rede grande, o Fotolog, que não deixa de ter um caráter de rede social, apesar de ter um apelo mais limitado, restringia o número de inscrições do Brasil, o que pode ter limitado o crescimento.

Não havia quase nenhum brasileiro no Friendster porque os brasileiros são pouco conectados com o exterior. Da mesma forma havia poucos brasileiros na primeira grande rede social, o Six Degrees, cerca de 10 anos atrás. O fato de que havia  brasileiros nessa rede não foi suficiente para que ela decolasse no Brasil porque na época ainda não havia um número suficiente de brasileiros conectados para que houvesse massa crítica. O Orkut surgiu na hora certa e foi isso que aconteceu no Brasil (e na Índia, embora não se mencione isso). Em países diferentes outras redes sociais dominam, como o Livejournal na Rússia.

Então, as explicações são simples. Uma rede social ia acabar pegando no Brasil. Não precisava ter sido o Orkut. Podia muito bem ser o Facebook se as coisas acontecessem alguns anos depois, ou o Friendster, se fosse um ano antes. Mas muitas coisas se juntaram ao mesmo tempo, e o crescimento tão acelerado, para mim, foi devido à Conectiva e à comunidade Linux no Brasil.

Uma aventura em bash

Em uma lista de discussão da qual eu participo, cujo nome não deve ser mencionado nunca, as pessoas começaram a discutir bobagens feitas em servidores Unix, e eu pude contar uma história que aconteceu comigo em 1998. Se você é um administrador Unix ou, em especial Linux, você provavelmente vai achar interessante. Caso contrário, você vai achar ainda mais chato que os posts habituais.

Eu estava conectado em um servidor Linux remoto, resolvendo um problema grave e urgente nos servidores SMTP de um cliente, um grande grupo editorial e de mídia cujo nome todos conhecem. Isso era resultado de um trabalho de consultoria.

Eu editei um script para mover alguns arquivos de diretório, e esse script moveu o diretório /bin para algum lugar desconhecido.

O que aconteceu foi mais ou menos o seguinte:

# [cria]
# [roda]
... script demora demais
^C
# ls
ls: command not found
# cd /bin
/bin: no such file or directory
# mkdir /bin
mkdir: command not found

… desespero, diversas tentativas de recuperar o diretório /bin, medo, etc…

Daí eu me toquei: eu estou em uma máquina Linux, com exatamente a mesma distribuição e versão. A máquina remota aceita login como root. Tudo que eu preciso fazer é copiar o meu diretório /bin para a máquina remota usando o scp. Então eu tento:

local$ scp -pr /bin root@remote:/bin
Password:
/bin/bash: command not found

Lógico, duh! Então eu fiquei esperto:

# which perl
/usr/bin/perl
# perl -e 'mkdir "/bin"'
#

Isso! Agora eu só precisava novamente do bash, que eu sabia que ainda existia na máquina, porque, afinal de contas, eu estava com uma instância aberta. Então eu fiz o seguinte:

# perl > /bin/cat

while(<>) {
print
}
^D
#!/usr/bin/perl
while(<>) {
print
}
^D
# perl -e 'chmod "/bin/cat", 0777'
# cat /proc/self/exe > /bin/bash
# perl -e 'chmod "/bin/bash", 0777'

E então eu tinha um bash funcionando! Então eu rodei o scp novamente e funcionou direitinho. Claro que cada passo me tomou bastante tempo, porque eu tive de testar cada comando e cada tecla, porque se eu perdesse esse shell, eu não teria nenhuma saída. Eu não falei das outras tentativas, como enviar via ftp, rsync, encontrar o diretório para onde eu tinha movido o /bin, rodar vi, find, etc, etc, etc. No total, devem ter sido uns 30 minutos, ou talvez mais, ou menos, não sei. O tempo estava andando de forma estranha naquela tarde. Nas festas certas é uma história popular. A sensação no final foi esta.

Ulrich Drepper sobre memória para programadores

Ulrich Drepper, programador do Kernel do Linux iniciou uma série de 7 artigos, em inglês, sobre memória na Linux Weekly News. Os artigos da área de kernel da LWN são leitura obrigatória para quem se interessa sobre programação em baixo nível.

Desta vez, ele fala sobre memórias DRAM, SDRAM, DDR e barramentos do ponto de vista de hardware.

As continuações devem ser sobre memória cache, memória virtual, NUMA (non-uniform memory access), instruções para programadores, ferramentas e tecnologia futura e devem ser publicadas com um intervalo de 1 a 2 semanas.

O capítulo 6, de instruções para programadores é o artigo principal, e vai utilizar as informações das outras para mostrar o que bons programadores, interessados em performance, devem saber. Aliás, se você está interessado em programar com alta performance em mente, eu recomendo fortemente o livro High Performance Computing, que eu acabei de descobrir que está esgotado.

SCO pede concordata

Logo SCO

Demorou, mas a SCO finalmente pediu concordata. Isso já era esperado há um tempo, desde que a tentativa estúpida de estorquir dinheiro de usuários do linux começou a falhar. Como a SCO perdeu para a Novell na maior parte, e o resultado desse julgamento é decisivo na disputa com a IBM, a SCO vai acabar devendo muito dinheiro de qualquer forma, mas talvez fazer isso agora evite que essas empresas recebam dinheiro.

Há uns anos a SCO ameaçava e alguns até acreditaram que o Linux estava com os dias contados, já que se descobriu que tudo tinha sido copiado. Os dois julgamentos mostraram justamente o contrário, que bastava entrar na briga que o Linux ia provar que ele é legal e que é seguro utilizá-lo em negócios. Mesmo a afirmação recente do Steve Ballmer de que usuários do Linux deveriam dinheiro à Microsoft por causa de violações de propriedade intelectual é considerada apenas piada e FUD. A Microsoft, por mais que fale, não teria coragem de colocar isso à prova e perder. É mais seguro utilizar essa ameaça, mas nunca cumprir.

Veja mais no Groklaw.