O sucesso do Orkut no Brasil foi presente do Linux

Foto do John Perry Barlow no Orkut

Muita gente ainda discute o sucesso do Orkut no Brasil, e um certo toque mítico surgiu para explicar a dominância brasileira e o gosto brasileiro pela rede social. O Juliano Spyer cita uma entrevista de John Perry Barlow na qual ele relata como no começo do orkut enviou convites para brasileiros como uma experiência e o resultado seria um crescimento fantástico do Orkut no Brasil.

É muito interessante, e eu nem conhecia esse lado da história, e isso talvez seja um indicativo de que isso superestima o papel que o John Perry Barlow teve no crescimento do Orkut. Eu sou um usuário antigo do Orkut. Tão antigo que quando eu entrei eu não conhecia nenhum brasileiro que estivesse na rede social. O Orkut quando iniciou era um fenômeno dentro do Vale do Silício, e as pessoas queriam fazer parte de certa forma para poder se associar aos grandes participantes que faziam tanta coisa, como as linguagens de programação Perl e Python, o Google, o Yahoo, o Linux.

Orkut no começo

Eu fui convidado por um amigo que trabalhava nessa região, ex-CTO de uma empresa do Vale do Silício. Eu imediatamente convidei diversos amigos e colegas de diversos grupos que eu conhecia, mas poucos acabaram entrando  após o meu convite. Esses poucos que aceitaram convidaram outras pessoas das quais provavelmente poucas aceitaram, mas algumas acabaram recebendo convites de mais de uma pessoa, e com isso vários dos que eu tinha convidado inicialmente mas tinha recusado acabou cedendo e entrando. Essas pessoas convidavam outras, que eu também conhecia, e essas por sua vez me adicionavam. Dessa forma eu via a propagação do Orkut, diferentes círculos de amigos que iam aparecendo no Orkut. A imagem que eu tinha na época era de uma forma de gelo que ia se enchendo. Cada vez que um compartimento se enchia, a água passava para outro e lentamente ia enchendo outros e outros.

Os dois mecanismos

Ou seja, eu presenciei dois mecanismos que fizeram o Orkut crescer. O primeiro foi uma certa atração pela exclusividade, que funcionou com os primeiros brasileiros a entrar no Orkut, ligados a acontecimentos e a pessoas do Vale do Silício. O segundo foi simplesmente uma certa pressão pelos pares, ou talvez o instinto gregário dos brasileiros em geral que levou as pessoas a entrar porque os amigos estavam dentro do Orkut.

ACME

Eu duvido que a distribuição de senhas feita pelo John Perry Barlow tenha catalisado a propagação do Orkut. Acho que o caminho principal foi outro: a comunidade Linux, centralizada na Conectiva e, especialmente, no ACME, Arnaldo de Carvalho Melo. Ali tinha uma comunidade de geeks, na qual um núcleo entrou devido ao primeiro mecanismo e o uso  depois se propagou graças ao segundo mecanismo. A Conectiva tinha crescido bastante e por isso tinha membros espalhados pelo país, conhecidos uns dos outros, todos ligados à Internet e de certa forma interligando diversas universidades e grupos de amigos e profissionais de diferentes cidades no Brasil inteiro.

Era um grupo coeso, o que é importante para conseguir o segundo mecanismo de propagação. Pessoas isoladas dificilmente conseguiriam um crescimento inicial tão rápido, especialmente quando é necessário atrair pessoas para quem Larry Wall, Guido Van Rossum, John Perry Barlow e Alan Cox não significam nada. Um grupo distribuído de pessoas que deseja manter contato umas com as outras e com seus ídolos é um núcleo ideal para esse crescimento tão acelerado.

Por que, afinal?

Mas mesmo se a Conectiva não tivesse existido, o Brasil ainda teria sido tomado pelo Orkut, embora levando mais tempo. O motivo é que John Perry Barlow está certo em dizer que era como uma solução super-saturada, esperando uma semente, ou uma leve agitação, para cristalizar. Uma hora ou outra as conexões entre as pessoas iam acabar levando ao surgimento de uma nova rede social importante no Brasil. Talvez tivesse sido a partir de pessoas que eu convidei (no final, boa parte da USP e diversos membros de empresas de tecnologia de São Paulo), talvez a partir de outros grupos de pessoas, mas a verdade é que o fato de que o Orkut dominou o Brasil foi causado simplesmente pelo fato de que não havia concorrentes na época.

A rede que predominava nos EUA era o Friendster, com o Myspace no meio do seu crescimento acelerado, mas nenhum deles tinha entrado no Brasil. Uma outra rede grande, o Fotolog, que não deixa de ter um caráter de rede social, apesar de ter um apelo mais limitado, restringia o número de inscrições do Brasil, o que pode ter limitado o crescimento.

Não havia quase nenhum brasileiro no Friendster porque os brasileiros são pouco conectados com o exterior. Da mesma forma havia poucos brasileiros na primeira grande rede social, o Six Degrees, cerca de 10 anos atrás. O fato de que havia  brasileiros nessa rede não foi suficiente para que ela decolasse no Brasil porque na época ainda não havia um número suficiente de brasileiros conectados para que houvesse massa crítica. O Orkut surgiu na hora certa e foi isso que aconteceu no Brasil (e na Índia, embora não se mencione isso). Em países diferentes outras redes sociais dominam, como o Livejournal na Rússia.

Então, as explicações são simples. Uma rede social ia acabar pegando no Brasil. Não precisava ter sido o Orkut. Podia muito bem ser o Facebook se as coisas acontecessem alguns anos depois, ou o Friendster, se fosse um ano antes. Mas muitas coisas se juntaram ao mesmo tempo, e o crescimento tão acelerado, para mim, foi devido à Conectiva e à comunidade Linux no Brasil.

A chance de ouvir Yochai Benkler

Yochai Benkler vai participar via video-conferência do ciclo de debates que o Instituto de Estudos Avançados da USP promove sobre o livro “A Riqueza das Redes” no dia 6/12/2007 às 14:30 no Auditório Alberto Carvalho da Silva do Instituto de Estudos Avançados.

O livro é uma análise sobre a produção de cultura e informação, o papel dos blogs, youtube, e a Internet em geral, explica economicamente as consequências do surgimento desses novos meios para a economia, cultura e política, e expõe os interesses e os preconceitos envolvidos. O livro é leitura obrigatória para todos os interessados em jornalismo, economia, análise de investimentos, cultura, tecnologia, negócios, blogs, política, programação, web design e Internet.

via Não Zero